
Carta Pública da UNETE-Zulia ao PSUV e aos candidatos da aliança

Vídeo: Solidariedade Internacional para o 26-S
Solidaridad internacional con la Revolución Bolivariana from Patrick Larsen on Vimeo.
Declaração da Campanha Internacional "Tirem as Mãos da Venezuela" sobre as eleições parlamentares
A Revolução Bolivariana desenvolveu raízes muito profundas no povo venezuelano. Os resultados conquistados por trabalhadores e camponeses, pelos setores mais pobres da cidade e do campo, são bem conhecidos: na educação, saúde, desenvolvimento de infra-estrutura básica, o controle estatal de empresas estratégicas e início de uma reforma agrária.
O exemplo da Venezuela tem inspirado os trabalhadores, camponeses e setores populares da América Latina e em todo o mundo na luta contra a dominação estrangeira, a pobreza e a exploração.
Mas a revolução bolivariana também tem provocado há muitos anos o ataque furioso do imperialismo norte-americano e seus aliados na oligarquia venezuelana que vêem esses avanços sociais como uma ameaça aos interesses dos privilegiados e dos poderosos, e buscam minar o seu alcance e objetivos utilizando todos os meios à sua disposição: A pressão diplomática internacional, uma campanha de mídia implacável de mentiras e calúnias e tentativas de sabotagem da economia venezuelana.
Uma representação importante das forças de direita e da reação na Assembleia Nacional, sem dúvida, será usada como arma para impedir as medidas progressistas impulsionadas até agora, e como um ponto fundamental para organizar o boicote ao avanço da revolução, como vimos outras vezes na Venezuela e países como Honduras, Bolívia, Equador, e ainda mais atrás no tempo, na Nicarágua ou no Chile.
Uma eventual derrota da revolução venezuelana seria usada contra aqueles que sofrem com a dominação e a opressão dos poderosos e lutam por um mundo melhor em todo o mundo. Estimularia os governos e setores reacionários de cada país a reforçar as suas políticas anti-povo, tentando enfraquecer e desmoralizar aqueles que se opõem a seus planos. Por isso é mais necessário do que nunca, e um dever fundamental, que todas as forças progressistas da sociedade: trabalhadores, setores populares da cidade e do campo, a juventude, os profissionais liberais e intelectuais comprometidos com a causa popular, unam suas vozes e esforços na América Latina e internacionalmente para defender a Revolução Bolivariana, para mostrar suas realizações e denunciar as forças obscuras da reacção que tentam acabar com ela.
Entendemos as eleições parlamentares de 26 de Setembro, portanto, como um marco importantíssimo na luta de forças vivas, entre o progresso e a reação, entre o futuro e o passado. Assim, damos nosso total apoio e solidariedade para com os candidatos bolivarianos apresentados pelo PSUV e fazemos um apelo ao povo venezuelano para apoiá-los com o seu voto.
Nós, que assinamos esta declaração chamamos a reforçar as atividades de solidariedade com a revolução venezuelana e nos comprometemos a combater a campanha de mentiras e desinformação dos meios de comunicação e divulgar as realizações do movimento bolivariano. Pretendemos também criar laços de solidariedade entre o povo revolucionário da Venezuela e de seus irmãos de outros países para defender a revolução contra as ameaças internas e externas.
Além disso, em conjunto com o Congresso Bolivariano dos Povos, chamamos a organizar ações de solidariedade em todo o mundo em 17 e 18 de Setembro.
Manos Fuera de Venezuela - Comitê da Venezuela
Manos Fuera de Venezuea - Argentina
Manos Fuera de Venezuela - Bolívia
Tirem as Mãos da Venezuela - Brasil
Manos Fuera de Venezuela - El Salvador
Manos Fuera de Venezuela - México
Hands Off Venezuela - Estados Unidos
Hands Off Venezuela - Canadá
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Em 26 de Setembro apoiamos a Revolução Bolivariana!
A Campanha Internacional "Tirem as Mãos da Venezuela" manifesta seu apoio à revolução bolivariana diante das eleições de 26 de Setembro e, conjuntamente com o Congresso Bolivariano dos Povos, convoca uma jornada mundial de ações de solidariedade para os dias 17 e 18 de Setembro. Assine, divulgue e apóie a Revolução Bolivariana!
Diante das eleições à Assembleia Nacional do próximo 26 de Setembro na Venezuela, nós abaixo-assinados queremos manifestar o nosso apoio internacionalista e solidariedade com a Revolução Bolivariana.
- Porque tem enfrentado o imperialismo de maneira valente!
- Porque tem investido o dinheiro da receita do petróleo para a erradicação do analfabetismo e a extenção da educação a todos os níveis!
- Porque tem feito um esforço gigantesco para extender a saúde aos segmentos mais pobres da população com a Missão "Barrio Adentro"!
- Porque iniciou um processo de expropriação de latifúndios e de distribuição de terras!
- Porque tem enfrentado o monopólio dos meios de comunicação e avançou para a democratização do acesso à mídia!
- Porque reverteu o processo de privatização de empresas e serviços públicos e reestatizou alguns que haviam sido privatizados!
- Porque ousou ocupar as fábricas abandonadas e colocou-as a produzir sob controle dos trabalhadores!
- Porque começou a introduzir o controle operário nas indústrias básicas!
- Porque levantou a bandeira do socialismo no século XXI!
- Porque uma derrota da revolução significaria um avanço do imperialismo, da oligarquia, dos latifundiários e capitalistas, dos que organizaram o golpe de Abril de 2002!
- Porque a revolução ainda não foi concluída!
Devido a isso e muito mais, nós apoiamos a revolução bolivariana e os candidatos do PSUV em 26 de Setembro e permanecemos alertas para combater a campanha de mentiras e provocações por parte do imperialismo e da contra-revolução.
Primeiras assinaturas no Brasil:
Serge Goulart – Direção Nacional do PT
Severino Nascimento “Faustão” – Direção Nacional da CUT
Álvaro Cardoso de Lima “Bambu” – Direção Executiva Nacional da CNQ (Confederação Nacional dos Trabalhadores Químicos da CUT)
Adilson Mariano – Vereador de Joinville-SC pelo PT
Roque Ferreira – Vereador de Bauru-SP pelo PT
Pedro Santinho – Coordenador do Conselho Operário da Fábrica Ocupada Flaskô
José Carlos Miranda – Coordenação Nacional do Movimento Negro Socialista
Cynthia Pinto da Luz – Movimento Nacional de Direitos Humanos
Maria de Lourdes Coelho “Lourdinha” – Confederação Nacional dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal da CUT
Arlindo Belo – Direção Nacional da CNQ (Confederação Nacional dos Trabalhadores Químicos da CUT)
Carlos Castro – Direção Executiva Estadual do PT de Santa Catarina
Josenildo Vieira de Mello – Direção Executiva da CUT (Pernambuco)
Alexsandro Batista – Direção Executiva da CUT (Santa Catarina)
Emanuel S. A. Cancella – Secretário Geral do Sindipetro-RJ (Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro)
Verivaldo Mota “Galo” – Direção Executiva do Sindicato dos Trabalhadores Vidreiros do Estado de São Paulo
Plínio Baldoni – Direção Executiva do Sindicato dos Ferroviários de Bauru, MT e MS
Luciene Cordeiro – Direção Executiva do Sinduprom (Pernambuco)
Maico Paixão – Presidente da UJES (União Joinvillense dos Estudantes)
Delmo Bussolaro – Presidente do PT de Araquari-SC
Ulrich Beathalter – Presidente do Sinserj (Sindicato dos Servidores Públicos de Joinville-SC)
Rosângela Soldatelli – ex-Presidente do Sintrasem (Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Municipal de Florianópolis-SC)
Clarice Erhardt – Coordenadora Regional de Joinville do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina
Milton Zanotto – Diretor do Sinpronorte-SC (Sindicato dos Professores do Norte de Santa Catarina)
Ricardo Morais – Diretor do Sindiquímica (Pernambuco)
Mirian dos Santos – Direção do Sinteepe e Diretório Municipal do PT de Jaboatão-PE
André Olegário – Diretor da UEE-SP (União Estadual dos Estudantes de São Paulo)
José Maria S. Nascimento – Direção Executiva do Sindipetro-RJ (Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro)
José Guido – Direção Executiva do Sindicato dos Trabalhadores Vidreiros do Estado de São Paulo
José Luis dos Santos “Paraná” – Direção Executiva do Sindicato dos Trabalhadores Vidreiros do Estado de São Paulo
Mario Conte – Direção Executiva do Sindicato dos Músicos Profissionais Independentes de São Paulo
Francisca Schardeng – Direção Executiva do PT de Joinville-SC
Francisco Lanzzarin – Direção Executiva do PT de Garuva-SC
Airton Sudbrack – Direção Executiva do PT de Jaraguá do Sul-SC
Moacir Nazário – Direção Executiva do PT de Joinville-SC
Silvio Durante – Direção Executiva Municipal de Bauru da JPT (Juventude do PT)
Caio Dezorzi – Diretório Municipal do PT de São Paulo
Adhel Daher – Diretório Municipal do PT de Araçatuba-SP
Rafael Prata – Diretório Municipal do PT de Campinas-SP
Fabiano Stoiev – Diretório Municipal do PT de Curitiba-PR
Alexandre Mandl – Conselho Operário da Fábrica Ocupada Flaskô
Raimundo Nilo Mendes – Sindipetro-RJ (Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro)
Fernando Borges Leal – Sindipetro-RJ (Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro)
Andrea Penha – Direção Executiva da AMES (Associação Matogrossense de Estudantes Secundaristas)
Vinícius Dantas – Associação de Pós-graduandos da UFSCar (São Carlos-SP)
Tiago de Carvalho – Presidente do Centro Acadêmico de Direito da Univille
Abdeir Chrispim – Centro Acadêmico de Filosofia - USP
Roberta Ninin – Coletivo de Cultura da CUT de São Paulo
Ludmila Facella – Ocupação da Coseas da USP (Moradia retomada)
Fábio Ramirez – Juventude Marxista
Flávio Almeida Reis – Direção da Juventude do PT (Caxias-RJ)
Wanderci Bueno – Jornal Luta de Classes
Elyabe Érik - Vice-Presidente do Grêmio Estudantil do CERU (Condado-PE)
Mayara Colzani – Grêmio da Escola Paulo Medeiros (Joinville-SC)
Luana Hellmann – Grêmio da Escola Germano Timm (Joinville-SC)
Iago Paqui – Grêmio da Escola Tufi Dippe (Joinville-SC)
Nicolas Marcos – Grêmio da Escola Presidente Médice (Joinville/SC)
Diante da provocação de Uribe à Venezuela: Defender a Revolução Bolivariana!
Na quinta-feira, 22 de julho, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, decidiu colocar a fronteira com a Colômbia em alerta militar máximo, depois do presidente colombiano, Alvaro Uribe, ter acusado a Venezuela de acolher os guerrilheiros das FARC e pedido uma "comissão internacional de inquérito" para esse assunto. É razoável supor que esta provocação do governo de Uribe, poucas semanas antes da entrega do poder ao novo presidente, Juan Manuel Santos, está ligada a uma campanha mais ampla contra a revolução venezuelana em preparação para as importantes eleições da Assembleia Nacional em 26 de Setembro.
O presidente Chávez também anunciou o rompimento das relações diplomáticas com a Colômbia e deu 72 horas para diplomatas colombianos deixarem o país. Toda a apresentação do embaixador da Colômbia na reunião da OEA em Washington foi uma farsa. Ele apresentou fotos e mapas por satélite que supostamente mostravam a presença de líderes das FARC e do ELN na Venezuela, além da presença de campos das FARC e do ELN.
O embaixador colombiano explicou que as imagens foram obtidas do famoso computador de Raúl Reyes, líder das FARC morto em uma incursão ilegal de tropas colombianas em território equatoriano em março de 2008. Um relatório da Interpol já tinha deixado claro que não foram usados métodos adequados para manipular o computador e seu conteúdo tinha sido mudado entre os dias de 1 de março, quando foi capturado pelo exército colombiano, e o dia 3 de março, quando foi publicado o seu conteúdo. Em outras palavras, essas provas são do mesmo calibre que as provas que mostraram a presença de armas de destruição em massa no Iraque.
"Não há nenhuma evidência, nenhuma prova, são fotos tiradas não se sabe onde, e como já conhecemos bem essas coordenadas, muitas dessas fotos são duvidosas", disse o embaixador da Venezuela na OEA, Roy Chardeton. Ele acrescentou que o governo venezuelano tinha cuidadosamente verificado e inspecionados os locais e as coordenadas fornecidas pelo governo de Uribe na quinta-feira e não tinha encontrado nenhum campo "terrorista" ou "presença de guerrilha", como a Colômbia tinha denunciado.
Na verdade, pode-se perguntar: por que o governo colombiano esperou mais de dois anos para divulgar a informação supostamente encontrada no computador de Reyes? Alguns argumentam que uma das razões pode ser o fato de Uribe estar prestes a transferir o mandato à Santos que é, supostamente, um presidente mais "razoável", que pretende construir "boas relações" com a Venezuela. No entanto, isso é uma ilusão. Santos foi ministro da Defesa de Uribe e ele próprio foi o porta-voz de inúmeras provocações contra a Venezuela no passado. Não devemos ter ilusões de que será melhor do que Uribe nem na na política interna, nem na externa.
É razoável supor que esta provocação do governo de Uribe, poucas semanas antes da entrega do poder ao novo presidente, Juan Manuel Santos, está ligada a uma campanha mais ampla contra a revolução venezuelana em preparação para as importantes eleições da Assembleia Nacional em 26 de Setembro.
Em 3 de junho, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, lançou um ataque público contra a Venezuela, dizendo que "seus líderes tentaram silenciar as vozes independentes que querem controlar o governo", ao mesmo tempo que anunciava maiores subsídios para as ONGs que atuam em países como a Venezuela, onde a democracia está supostamente "ameaçada".
No início de julho, o cardeal Jorge Urosa, arcebispo de Caracas, lançou um ataque virulento contra Chavez, dizendo que ele estava levando o país para uma “ditadura marxista-leninista", baseada em um “modelo estrangeiro" emprestado da ex-União Soviética, e que tinha uma "tendência violenta e totalitária". O Cardeal convenientemente se esqueceu que a hierarquia da Igreja Católica, e ele próprio, estavam diretamente envolvidos e apoiaram o golpe de abril de 2002 contra o presidente democraticamente eleito. Essas são as suas credenciais democráticas!
Também existem tensões devido a presença de aviões militares dos EUA nas ilhas holandesas de Curaçao, em frente à costa venezuelana, que a Venezuela tem acusado repetidamente de violar seu espaço aéreo. A isto é preciso acrescentar a implantação recente de tropas estadunidenses na Costa Rica, um país sem exército, cujo governo autorizou, em 1 de julho, a presença de 46 navios e 7.000 marines dos EUA no seu território.
As eleições à Assembleia Nacional
Está claro que cada vez que o povo venezuelano é convocado à novas eleições ou referendos, é desencadeada uma campanha cuidadosamente planejada. A campanha inclui a manipulação da mídia, ataques e pressões diplomáticas, as tentativas de rotular a revolução venezuelana como uma ditadura, ou vinculá-la com o tráfico de drogas ou o "terrorismo". Também inclui a sabotagem econômica, as tentativas de criar o caos na Venezuela, etc. Esses são os métodos "democráticos" da oligarquia venezuelana e do imperialismo, e a Colômbia é um ponto importante nesses planos.
Washington é muito seletivo em sua condenação das violações dos direitos humanos. Sob o comando de Uribe, a Colômbia tem acumulado um número chocante de violações, incluindo o assassinato de líderes sindicais e sociais, tortura, seqüestro, etc. Recentemente se descobriu a maior vala comum da América Latina em Macarena, que pode conter mais de 2.000 corpos de mortos durante a guerra suja. Organizações de direitos humanos temem que muitos destes podem ser "falsos positivos", ou seja, pessoas comuns que foram mortas pelo exército e, posteriormente, classificada como "insurgentes" para inflar os números de eficácia na luta contra a guerrilha, e para que soldados e oficiais pudessem cobrar as recompensas.
No entanto, apesar da recente vitória eleitoral do sucessor de Uribe, a classe dominante colombiana enfrenta uma crescente militância nos sindicatos, movimentos camponeses e indígenas. Durante a celebração do 200º aniversário do início da luta pela independência, organizações sociais e indígenas organizaram uma marcha e comícios, em Bogotá, com mais de 25.000 participantes.
O governo direitista de Uribe assinou um acordo com os EUA, que permite acesso total a sete bases militares na Colômbia, bem como o pleno acesso à infra-estrutura civil do país. Isso significa que os militares norte-americanos na Colômbia, são imunes à acusações. O chamado para enviar "observadores internacionais" para a fronteira entre Colômbia e Venezuela é, portanto, uma provocação, que o presidente Chávez respondeu com a firmeza necessária.
Como esperado, Washington foi rápido para apoiar as acusações de Uribe, que de qualquer maneira haviam sido preparadas nos EUA. O porta-voz do Departamento de Estado, PJ Crowley, classificou a disputa como lamentável e disse que era uma "resposta petulante da Venezuela cortar relações com a Colômbia." "A Venezuela tem uma responsabilidade clara", disse ele. "A Colômbia fez acusações graves. Elas merecem ser investigadas."
Não surpreendentemente, estes ataques tem recebido todo o apoio da oposição venezuelana contra-revolucionária. Em uma conferência de imprensa, a “Mesa Unitaria Democática” (MUD) tem apoiado as alegações da Colômbia e atacou "a irresponsável política externa de Chávez. "
Entretanto, muito tem sido feito para colocar este tema na agenda da próxima reunião da UNASUL. O governo brasileiro tentou derramar água sobre as chamas. "Nós não queremos favorecer a Venezuela ou a Colômbia. Estamos buscando um acordo e seria ótimo se tivéssemos sinais de distensão antes de Santos assumir seu governo", disse Marco Aurélio Garcia, assessor de Lula para assuntos estrangeiros. Ele também insistiu que pensava que o conflito seria resolvido rapidamente "uma vez que Santos assumirá o cargo”. Mas como podemos resolver o conflito entre a revolução e a contra-revolução com sutilezas diplomáticas?
Defender a revolução na Venezuela!
Confrontado com este ataque, Chávez respondeu corretamente ao colocar o exército em alerta e chamou o povo a mobilizar-se e ficar atento. Ele também ameaçou fechar a fronteira e cortar o abastecimento de petróleo para os EUA se o conflito chegar a uma agressão militar.
Como já relatamos, a recém-formada Milícia Nacional Bolivariana é um passo para armar o povo em defesa da revolução, uma força de intervenção teria que enfrentar um povo armado. Esta iniciativa deve ser reforçada e ampliada, de modo que existam unidades da Milícia em cada fábrica, cada bairro, em cada comunidade rural, etc, para defender a revolução contra o capitalismo e o imperialismo.
Se os EUA forem tolos o suficiente para lançar um ataque militar contra a Venezuela através da Colômbia, isso poderia ter implicações revolucionárias em todo o continente. Nossa previsão é que no dia seguinte a tal ação não teria embaixada dos EUA de pé na América Latina.
A fim de defender a revolução venezuelana é necessário mobilizar a solidariedade internacional, não só na América, mas em todo o mundo. Ao mesmo tempo, na Venezuela, a revolução deve ser completada com a expropriação da oligarquia, dos banqueiros, da indústria e da terra, para que os trabalhadores da Venezuela possam impulsionar todo o potencial da economia através de um plano socialista democrático de produção.
Se a Revolução enfrenta a guerra, não pode se dar ao luxo de ser ingênua e deixar linhas vitais de abastecimento e do poder econômico nas mãos do inimigo. A classe capitalista venezuelana provou em mais de uma vez que, ao contrário da revolução não hesitará em usar todos os meios à sua disposição, incluindo assassinatos, golpes militares e de sabotagem econômica, para defender o seu poder, riqueza e privilégios.
A burguesia contra-revolucionária venezuelana demonstrou repetidamente que em qualquer conflito grave estaria alinhada com o inimigo estrangeiro, o imperialismo. A expropriação e estatização sob controle dos trabalhadores de suas propriedades é uma questão de sobrevivência para a revolução venezuelana.
Finalmente, é importante fazer um apelo internacional para o povo da Colômbia. Muitas vezes, a oligarquia na América Latina levou um povo à batalha contra um outro povo, para defender seu poder e desviar a atenção das massas de seus verdadeiros problemas para o inimigo “estrangeiro". A única maneira de alcançar a unidade da América Latina é através da extensão da revolução socialista em todo o continente e mais além.
Defender a revolução venezuelana!
Armar o povo através das milícias operárias e camponesas!
Expropriação da propriedade da oligarquia e do imperialismo!
Pela unidade dos povos da Venezuela e da Colômbia!
Por uma Federação Socialista da América Latina e do Caribe!
Jorge Martin
28/07/2010
A guerra econômica às vésperas das eleições parlamentares
A revolução venezuelana, para ser vitoriosa, deve ser levada até o final, com a expropriação dos capitalistas e latifundiários que ainda controlam dois terços da economia. Este controle é uma alavanca poderosa em suas mãos e que estão utilizando para organizar a sabotagem econômica para minar o governo. A direita, a quinta coluna reformista dentro do movimento bolivariano, está tratando de frear a revolução. É aí que mora o perigo.
As próximas eleições à Assembléia Nacional, previstas para 26 de setembro, representam um sério desafio para o futuro da Revolução Bolivariana. Nesses meses que antecedem as eleições, a Venezuela passou a viver uma situação muito volátil. A contra-revolução está em ofensiva, utilizando seu poder econômico para sabotar e açambarcar a fim de provocar escassez de alimentos.
Por seu lado, o governo está tratando de resolver alguns dos problemas, mas as medidas que adotou são tímidas e não vão ao cerne do problema. Uma grande parte do problema enfrentado pela Revolução é o grande e generalizado ressentimento popular contra a burocracia chavista – aqueles elementos que se uniram ao Movimento, não para lutar pelo socialismo, mas para fazer carreira, obter contratos lucrativos do governo ou postos de trabalho no Estado ou no partido. Este estrato, que se está tornando cada vez mais poderoso, representa a verdadeira quinta coluna da burguesia dentro da Revolução. E seus tentáculos chegam muito longe, no governo e no PSUV.
Há alguns meses, em abril, uma multidão de dignitários da América Latina chegou a Caracas, onde dominaram os meios de comunicação durante vários dias. Houve numerosos e longos discursos recordando os logros de Bolívar e a liberação da América Latina do jugo colonial. Mas às pessoas também lhes foi lembrado que a verdadeira independência deste grande continente ainda está por ser conquistada.
Nos últimos meses, o presidente Chávez insistiu repetidas vezes que não pode haver qualquer solução para os problemas dos povos da América Latina sob o capitalismo e que a única alternativa da raça humana é o socialismo ou a barbárie. A manifestação de 13 de abril deu ocasião para uma impressionante exibição da Milícia do Povo: operários, camponeses e estudantes armados.
No congresso de fechamento do PSUV, milhares de chavistas com suas camisas vermelhas gritavam Viva Chávez! E Viva a Revolução! Mas, sob a superfície existe um profundo sentimento de mal estar. Por trás dos discursos oficiais, as bases do PSUV estão expressando uma preocupação séria pela forma como vão as coisas e o que se depara no futuro.
Uma ativista bolivariana, Mônica, expressou sua preocupação:
“Quando vi a todos os milicianos e milicianas marchando no dia 13, enchi-me de orgulho. Mas há um problema. O número de bolivarianos nas ruas foi menor que em anos anteriores. Temo que estes desfiles estejam desviando a atenção das questões políticas, para longe dos problemas que preocupam as pessoas comuns”.
E confessou:
“Nós, os bolivarianos, estamos perdendo a batalha junto à população. Atualmente, os contra-revolucionários podem gritar contra Chávez nas paradas de ônibus e estações de metrô e ninguém lhes responde. Os chavistas estão cabisbaixos. Estamos na defensiva”.
Outro ativista chavista, Gustavo, comentou amargurado:
“O ambiente nos bairros pobres é muito ruim. No passado, as pessoas brigavam para subir nos ônibus para ir aos nossos comícios. Agora, ninguém mais quer ir. Alguns, inclusive, dizem: se me pagas, irei. Dizem que há um monte de dinheiro neste país... para alguns!”.
Como conseqüência disto, o resultado da próxima eleição é difícil de ser previsto. Muitas coisas podem acontecer nos próximos meses. Mas uma coisa está clara: não será fácil para os candidatos do PSUV. A vanguarda do PSUV e do movimento bolivariano vêm com crescente alarma que a contra-revolução está minando a revolução e que se prepara para um novo desafio para destituir Chávez de seu cargo.
PDVAL – o câncer da corrupção
Qual é a origem do problema? É o fato de que, onze anos depois de que Chávez chegou ao poder, a Revolução ainda não foi realizada até o final. O presidente admitiu honestamente que a Venezuela continua sendo um Estado capitalista. As esferas mais importantes da economia continuam em mãos privadas. A maior parte da terra está nas mãos dos latifundiários, enquanto que cerca de 70% dos alimentos são importados (apesar de a Venezuela ser um país agrícola fértil).
Isto contribuiu para exacerbar o problema da inflação (atualmente, uma das taxas mais altas na América Latina). A distribuição de alimentos continua nas mãos dos grandes supermercados e dos monopólios de alimentos, freqüentemente de propriedade de grandes consórcios estrangeiros. A fraude e a corrupção florescem neste setor e em outros.
Apesar de todos os esforços do governo, é freqüente e recorrente a escassez de determinados produtos alimentícios. Vimos o mesmo às vésperas do referendo constitucional (que o governo perdeu como resultado da alta abstenção). Esta é a clara evidência de uma campanha deliberada de sabotagem organizada pelas grandes empresas para desestabilizar o país e espalhar a desmoralização no período prévio às eleições de setembro.
Estes problemas são inseparáveis do problema da burocracia e da corrupção. O papel da burocracia é o de paralisar o avanço da Revolução, sabotar as leis progressistas e cancelar as iniciativas do presidente. A burocracia constitui a ala direita bolivariana, que se opõe obstinadamente às medidas revolucionárias, como a nacionalização e o controle operário. Em muitos casos, esta sabotagem já teve efeitos muito prejudiciais. Em nenhuma outra esfera isto é mais claro que no delicado setor de alimentação.
Um exemplo disso foi o recente escândalo na empresa estatal de alimentos PDVAL, que distribui mais de mil toneladas diárias de alimentos na Venezuela. No final de maio, o serviço de inteligência da Venezuela encontrou uma reserva secreta de 2.334 contêineres de alimentos, que haviam sido ocultos por alguns administradores corruptos da empresa. Como resultado, o ex-presidente de PDVAL, Luís Pulido, foi detido por corrupção e roubo.
Investigações posteriores indicaram que os problemas afetam muito mais que um só indivíduo. Segundo um artigo publicado em Últimas Noticias, de 09 de junho, os trabalhadores de PDVAL entregaram um informe a Chávez que revela como uma máfia organizada está operando na empresa de alimentos de propriedade do Estado.
O informe assinala que 12 altos dirigentes haviam organizado uma rede gangster que sistematicamente açambarcava os contêineres e os escondia por um tempo, até que superavam seu prazo de validade; então, eram vendidos no mercado negro e, logo, se faziam novos pedidos de contêineres através de PDVAL. Todos os que se atreveram a opor-se foram silenciados com ameaças de morte. Heartfriend Peña, um trabalhador que havia denunciado a existência de mais de 400 contêineres acumulados, foi despedido imediatamente pelos administradores corruptos.
A oposição de direita tratou de “provar” que o assunto de PDVAL revela que a própria revolução é um projeto fracassado. Por outro lado, os trabalhadores do setor estatal manifestaram-se para mostrar seu apoio aos programas alimentícios do governo.
O caso de PDVAL revela que é impossível construir uma sociedade nova, socialista, se o velho Estado burguês ainda permanece intacto. Sem o controle democrático da classe operária, é impossível evitar a corrupção e a burocracia. A corrupção é o câncer que está destruindo a revolução a partir de dentro. Se a revolução não destruir a burocracia, a burocracia irá destruir a revolução.
A direita chavista
A burocracia – esses agentes da burguesia com camisas vermelhas – está conduzindo uma cruenta guerra de desgaste contra os chavistas de esquerda. Usam de listas negras para impedir que os indivíduos verdadeiramente revolucionários tenham acesso ao presidente. Propagam mentiras e rumores contra a ala esquerda do PSUV, acusando-a de contra-revolucionária!
A ordem do dia para estes elementos é: disciplina! Com isto, querem dizer que os ministros devem fazer o que a burocracia lhes disser que façam! Antes que um ministro possa fazer algo, a ele ou a ela lhe dizem: primeiro, deve consultar a este ou àquele, para obter a aprovação. Mas este e aquele nunca vão aprovar medidas progressistas ou revolucionárias. Desta forma, a Revolução está sendo paralisada.
Quando algum ministro se nega obstinadamente a seguir a linha, ele ou ela pode ser marginalizado ou eliminado. O caso mais escandaloso foi a recente remoção de Eduardo Samán, o ministro mais popular no governo, que havia prestado seu apoio ativo às ocupações de fábricas e às nacionalizações.
Samán era muito popular com as pessoas simples, mas muito impopular com a burguesia e a quinta coluna, porque exigia o monopólio estatal do comércio exterior, uma medida absolutamente correta e necessária numa economia socialista. Ele também se ocupava do que era praticamente uma cruzada de um só homem para manter baixos os preços dos produtos alimentícios básicos. O homem que o substituiu imediatamente aumentou o preço de toda uma série de produtos alimentícios básicos e suprimiu os controles de preços dos produtos básicos que Samán havia mantido em seu lugar. Esta não é a melhor maneira de se ganhar o apoio das massas chavistas e, ainda mais, em ano eleitoral!
Algumas empresas supostamente implicadas no setor alimentício fazem fortunas especulando em dólares e em bolívares, e praticamente nada produzem. Inclusive algumas das nacionalizações realizadas são discutíveis. Em muitos casos, a burocracia destruiu o controle operário e recolocou os velhos administradores. Em outros casos, os antigos donos continuam administrando as empresas. Em outros, a única coisa que mudou foram as etiquetas das latas de café, e assim sucessivamente.
Contrastando com tudo isto, está o caso da fábrica La Gaviota, que produz sardinhas e que foi nacionalizada e opera com êxito sob controle operário. O problema é que casos como este são a exceção e não a regra.
É necessário completar a revolução
Em sua clássica análise da revolução espanhola, o marxista norte-americano Felix Morrow relata uma conversa típica entre um miliciano e um camponês pobre durante a guerra civil. O primeiro trata de convencer o segundo sobre a necessidade de defender a República Espanhola. Este último responde com uma pergunta simples e direta: “Que nos deu de comer a república?”.
Este episódio tem um profundo significado atualmente para a Venezuela. Não basta ter boas intenções ou defender o socialismo como um ideal. Para as massas pobres, o socialismo deve significar pão, manteiga e leite. Deve significar o final dos altos índices de delinqüência, o final dos aumentos de preços e o final da pobreza completamente.
Enquanto alguns funcionários e ministros do governo estão ocupados fazendo longos discursos sobre “democracia popular”, o inimigo está se referindo aos problemas reais, como a inflação, a escassez de alimentos e o índice de criminalidade. Naturalmente, a corrupta oposição venezuelana (que é financiada pelo imperialismo dos EUA) faz isto de forma cinicamente proposital e com o único objetivo de minar a revolução. No caso de voltarem ao poder, poderemos estar seguros de que as coisas serão muito pior, da mesma forma que as coisas se tornaram muito pior para os trabalhadores e camponeses espanhóis depois da vitória de Franco do que antes, durante a República.
Contudo, é particularmente perigoso neste momento tratar de evadir os problemas reais. Alguns setores reformistas, tanto na Venezuela quanto internacionalmente, trataram de negar os problemas sociais e econômicos do país, tratando-os como simples “propaganda da oposição”. Mas ao negarmos o que é evidente para todos, tornamo-nos cada vez mais distanciados do sentimento das massas, que sofrem os efeitos da crise econômica em sua vida cotidiana.
A necessidade de se completar a revolução é mais urgente que nunca. Incrivelmente, depois de mais de dez anos de revolução, apesar da irresolução, a situação continua sendo favorável. Chávez poderia utilizar sua maioria no Parlamento para aprovar uma lei que permitisse nacionalizar as maiores companhias, o setor de alimentação e supermercados, os bancos e a indústria, que permanecem em mãos privadas. Isto poderia acontecer acompanhado pelo monopólio estatal do comércio externo, o que permitiria à Venezuela ter o controle total sobre a economia do país. Ademais, um decreto introduzindo o controle operário em todo o setor estatal com total segurança receberia uma resposta entusiasmada dos trabalhadores, criando comitês de fábrica em todas as empresas, como vimos de forma embrionária em Sidor e outras indústrias básicas de Guayana.
Ao avançar nestas linhas, o governo rapidamente enfrentaria com realismo os problemas da inflação, da especulação, da moradia, do açambarcamento de alimentos e da infra-estrutura. Poder-se-ia introduzir uma reforma agrária radical, cujo objetivo seria o de suprimir o predomínio do latifúndio no campo e de dar terras aos camponeses. O controle do crédito em grande escala permitiria ao Estado fornecer crédito barato aos pequenos agricultores e incentivos à produção agrícola e, dessa forma, por um fim à absurda importação massiva de produtos alimentícios.
Nacionalizar os bancos sob controle operário!
Na segunda-feira, 14 de junho, as autoridades venezuelanas anunciaram o fechamento temporário e a investigação do Banco Federal, o maior banco do país. Uma das razões era que o banco não cumprira uma lei venezuelana que estimula o investimento mínimo para fins lucrativos.
Esta medida foi tomada depois da intervenção e subseqüente nacionalização de uma série de bancos de tamanho médio em novembro do ano passado, que conduziu à fundação de um novo banco estatal, o Banco Bicentenário. Isto significa que o setor estatal agora possui entre 20-25% do sistema financeiro.
Embora estas nacionalizações representem um passo a frente, há que se assinalar que os capitalistas do setor financeiro da Venezuela (vários deles multinacionais) continuam tendo liberdade para sugar uma enorme riqueza do país. Um artigo da revista financeira burguesa Reporte – Diário da Economia (de 05/02/2010) revelou que haviam obtido 2,615 bilhões de dólares americanos de lucros em 2009. 86% desse valor vieram da cobrança de comissões. Esta é uma cifra grotesca, tendo em consideração que milhões de venezuelanos vivem em bairros extremamente pobres, sobrevivendo com 5-10 dólares ao dia.
Além da evidente injustiça social, o que isto indica é que, depois de uma década desde o início da Revolução Bolivariana, a economia venezuelana continua sendo claramente uma economia de mercado, um fato que é inclusive admitido por funcionários do governo. De acordo com as cifras do Banco Central da Venezuela, o setor privado continua criando 70% da riqueza gerada na Venezuela.
Embora continue sendo o maior, o setor privado teve uma queda mais abrupta que a do setor público. Por exemplo, em 2009, o PIB caiu 3,3%, correspondendo a uma redução de 4,5% para o setor privado e um crescimento de 0,9% para o setor público. O PIB (em bolívares) foi de 56 bilhões de dólares, dos quais 33 bilhões foram criados pelo setor privado e 17 bilhões pelo setor público (seis bilhões foram provenientes de impostos líquidos sobre os produtos). Apesar da imprecisão, isso significaria que o setor privado representa 66% do PIB, não estando longe que a cifra real seja de 70%. Assim, o que temos na Venezuela não é socialismo, mas uma economia mista, em que predomina o elemento capitalista. Muitas coisas se deduzem deste fato.
Manter o sistema capitalista fez com que a Venezuela tenha sido duramente golpeada pela recessão mundial. O ano de 2009 terminou com o PIB do país contraído em 3,3% e o primeiro trimestre de 2010 se traduziu numa queda de 5,8%. Em 2008, o PIB cresceu 4,8%. Mas, no mesmo período, o setor privado caiu 0,1% e o setor público cresceu 16,3%. Isto significa que, na atualidade, é o setor estatal que está sustentando a economia. A razão é clara: os capitalistas não são capazes, nem estão dispostos a expandir as forças produtivas.
Nos últimos dez anos ocorreu o fechamento de quatro mil pequenas e médias empresas na Venezuela. Ao mesmo tempo, a inflação é muito alta. As cifras recentes revelam que a inflação acumulada nos primeiros quatro meses de 2010 é de 11,3%, enquanto que, no mesmo período do ano passado, era de 6,7%. Esta situação está tornando a vida cada vez mais difícil para as famílias da classe trabalhadora, porque os aumentos salariais foram a exceção e não a regra. Dessa forma, há uma queda real do poder aquisitivo dos trabalhadores venezuelanos.
A revolução deve levar em consideração esta situação e tirar as conclusões necessárias: dentro dos limites da economia de mercado não há maneira de resolver os urgentes problemas das massas. No período prévio às eleições parlamentares da Venezuela, os marxistas venezuelanos lutarão por um verdadeiro programa socialista no PSUV, junto à juventude do PSUV e na UNT. A nacionalização de INAF é a primeira vitória neste sentido e mostra como é possível ganhar-se uma luta se os métodos do marxismo estão na vanguarda.
Contudo, a nacionalização parcial não funcionará. O que se requer é uma economia socialista planificada. Com o objetivo de se por um fim ao caos, todas as alavancas dominantes da economia, incluídos os bancos, devem ser expropriadas sem indenização. E com a finalidade de erradicar o câncer da burocracia e da corrupção, é essencial que a economia e o Estado estejam nas mãos da classe trabalhadora.
Em várias ocasiões, Chávez citou o Estado e a Revolução de Lênin como uma leitura obrigatória para todos os membros do PSUV. Quais foram as condições básicas que Lênin propôs para a criação de uma democracia operária e do movimento em direção ao socialismo?
Estas medidas devem ser aplicadas imediatamente na Venezuela. Esta é a única maneira de se colocar um fim à corrupção e à burocracia. Em seu discurso ante o Congresso do PSUV em abril, Chávez assinalou a crise mundial do capitalismo e, mais uma vez, enfatizou que somente o socialismo pode salvar a humanidade. Novamente citou Lênin (O Estado e a Revolução e o Imperialismo) e Marx, sublinhando o fato de que o PSUV defende a luta de classes. Já é hora de que as palavras do presidente sejam colocadas em prática!
Como ganhar as classes médias?
Uma das objeções fundamentais colocadas pelos reformistas ao programa socialista é a de que afastará as classes médias. Isto é completamente falso. As expropriações não estão dirigidas contra os pequenos proprietários: os donos de pequenas empresas, lojas e bares ou ao campesinato com pequenas parcelas de terra e algumas galinhas. Estão dirigidas exclusivamente aos grandes bancos e monopólios que exploram, enganam e roubam os pequenos negócios.
O pequeno comerciante, os pequenos camponeses e as outras chamadas camadas intermediárias, que se encontram entre a classe operária e a burguesia, constituem uma classe muito heterogênea. Em suas camadas superiores estão próximas à burguesia. Os advogados prósperos, professores universitários, economistas, jornalistas e outros profissionais têm interesses na sociedade existente e estão dispostos a servir seus interesses. Seus filhos e filhas nas universidades proporcionam a ponta de lança da reação.
Contudo, as camadas inferiores da classe média são particularmente voláteis e em constante oscilação entre a revolução e a contra-revolução. Estas camadas tendem a seguir a classe que mostra o caminho a frente. Somente podem ser ganhas mediante uma política consistente e firme. Os reformistas sempre apelam à moderação em nome de “ganhar as classes médias”. Mas a vacilação e a moderação são exatamente a forma de se perder o apoio da classe média e de entregá-la nos braços da reação.
Os reformistas alegam ser “realistas”, mas, na prática, sua política de “moderação” é totalmente utópica, como o revela a experiência. Há um par de anos, o ex-prefeito de Caracas Metropolitana, Juan Barreto, iniciou um programa de expropriações de edifícios e terrenos não utilizados (incluídos alguns campos de golfe), que, inicialmente, teve uma muito boa acolhida dos habitantes, dos quais muitos procediam de famílias de classe média. Viram que, finalmente, o governo começava a atacar os especuladores e os estelionatários imobiliários que estão fazendo dinheiro da falta de acesso a uma moradia barata. Mas esta política foi revertida rapidamente sob a pressão dos reformistas.
Isto alienou a classe média que estava a favor da expropriação dos ricos parasitas. A lição é clara: a classe média somente pode ser ganha se o governo, baseando-se na classe operária, adotar uma política socialista clara e mostrar coragem e determinação. Enquanto a revolução não for concluída, o pequeno comerciante sofrerá sob a ditadura dos monopólios e os pequenos camponeses sofrerão nas mãos dos latifundiários. É impossível ganhar as classes médias com medidas tímidas e meias-medidas. Somente se a revolução der passos decisivos para destruir o poder econômico da oligarquia poderá ganhar grandes seções da classe média para o lado da revolução.
O PPT e o apelo a um chavismo “tolerante”
À medida que a Revolução se aproxima de uma etapa crítica, inevitavelmente tende a se polarizar entre a esquerda e a direita, que representam, respectivamente, a pressão dos operários e camponeses que lutam por derrotar a burguesia e completar a revolução socialista, e a pressão da burguesia e de sua quinta coluna, lutando para derrotar e destruir a Revolução sob a falsa bandeira da “democracia” e da “tolerância”.
Neste contexto, o PPT (Pátria Para Todos), um partido que pertencia ao bloco pró-governo, mudou de camisa e está tratando de se apresentar como uma versão do chavismo mais “tolerante” que a defendida pelo próprio Chávez. Este partido está liderado por um ex-membro do PSUV que foi governador de Lara, Henry Falcón, que entrou em conflito com Chávez entre outras coisas porque resistiu às tentativas do governo de expropriar uma área industrial em Lara que pertence ao milionário Mendoza (o dono da cadeia produtora de alimentos e bebidas Polar).
O PPT está tentando agora (em grande parte da mesma forma que Violeta Chamorro na Nicarágua no final da década de 1980) apresentar-se como uma opção de “terceira via”, que pode abrir caminho para uma reconciliação geral sem derramamento de sangue, para um compromisso entre as classes que restaure a “normalidade” e, ao mesmo tempo, termine com as dificuldades das massas, como a inflação, a escassez de alimentos, e assim sucessivamente. Esta retórica é muito perigosa porque oculta a verdadeira face destas pessoas: a contra-revolução com máscara democrática.
Se o governo continuar sendo incapaz de resolver muitos dos principais problemas, os apelos demagógicos à reconciliação podem ganhar enormes camadas das classes médias e inclusive de algumas camadas da população urbana pobre que estão cansadas e frustradas pela lentidão da revolução e desesperadas por encontrar uma forma de sair do atual beco sem saída. Mas, e isto é o mais importante, o prolongamento da situação atual pode dar lugar à apatia e à desmoralização entre alguns setores das massas, que poderia se refletir em alta abstenção nas próximas eleições.
A etapa atual se caracteriza por enorme confusão. E, para resolver isto, não ajudam os pequenos partidos e grupos à margem do movimento bolivariano que se descrevem como “marxistas” e “trotskistas”, mas mostram completa incapacidade para entender a forma como se movem as massas. Um exemplo típico deste fenômeno é Orlando Chirino, um sindicalista que tem um histórico de lutas militantes com os trabalhadores têxteis de Aragua e que estava na vanguarda da criação da UNIT, a União Nacional dos Trabalhadores. Em 2007, Chirino decidiu boicotar o PSUV no referendo constitucional. Como advertimos naquele momento, agora ele é incapaz de diferenciar entre a revolução e a contra-revolução.
Isto foi confirmado de forma notável nos últimos meses. Chirino foi promovido a uma candidatura à Assembléia Nacional na lista do PPT! Assim, o grupo “trotskista” de Chirino está entrando numa Frente Popular de partidos burgueses para atacar o governo antiimperialista de Hugo Chávez! A história conhece todo tipo de transformações! Não contente de ser candidato numa lista burguesa, Chirino está agora publicamente em oposição à nacionalização da cadeia alimentícia Polar. Como ele disse, esta seria uma “nacionalização burguesa”!
Ao dar ao PPT uma cobertura de “esquerda” e “operária”, está objetivamente servindo aos interesses do imperialismo e da contra-revolução. Isto deve ser entendido e combatido por todos os trabalhadores militantes e sindicalistas. Aqueles que desejem derrotar a contra-revolução lutarão nas fileiras do PSUV para ganhar estas eleições como uma questão de vida ou morte para a revolução.
Por qual etapa estamos passando?
Os últimos onze anos da Revolução Bolivariana foram repetidamente salvos pela intervenção ativa das massas: em 2002, 2003 e, mais tarde, no Referendo Revogatório. Mas, já o Referendo Revogatório deu um sinal de alarme. A oposição não ganhou o referendo. Os chavistas o perderam. Três milhões de eleitores ficaram em casa.
É impossível de se avaliar com precisão a correlação real de forças eleitorais. Não é provável que a oposição de direita vá ganhar muitos votos dos chavistas. Mas há o grande risco de que os partidários de Chávez simplesmente se abstenham. Segundo alguns cálculos, o núcleo duro do voto chavista poderia ser em torno de um terço, com outro terço para a oposição, e outro terço (o elemento decisivo) de eleitores chavistas, que está desiludido e pode ser que não vá votar.
Isto poderia dar a maioria da Assembléia Nacional à Oposição. Isso seria um desastre para a Revolução. Inclusive se a oposição não obtiver uma maioria, mas conseguir uma importante votação seria um duro golpe. Uma forte presença da oposição na Assembléia dar-lhe-ia uma alavanca para minar e sabotar a legislação progressista. Ela a utilizaria para organizar manifestações massivas nas ruas e para mobilizar as massas pequeno-burguesas e estudantes de classe média como tropas de choque da contra-revolução. O perigo é real e está presente.
A Revolução Bolivariana está passando por uma difícil etapa: difícil, mas absolutamente necessária e inevitável. Cada revolução na história passa por diferentes etapas. Sempre há uma primeira etapa – a etapa das frases democráticas, como em fevereiro de 1917 na Rússia, ou em abril de 1931 na Espanha. Uma etapa de euforia na qual as massas estão convencidas de que todos os seus problemas serão resolvidos. As coisas parecem muito simples e fáceis nessa etapa!
Mas, logo, chega outra etapa, quando as massas começam a se dar conta de que as coisas não são nem simples nem fáceis. Vêem que as coisas não estão bem e experimentam sentimentos de decepção e desilusão. Uma camada cai na inatividade e na passividade. A contra-revolução se torna mais audaz a cada passo atrás dado pela Revolução.
É verdade que muitos antigos ativistas se desiludiram e caíram na inatividade. Mas há outra camada mais avançada e consciente de trabalhadores e jovens, que desenvolveram uma atitude crítica e que estão abertos às conclusões mais revolucionárias. Nos últimos anos vimos como este ambiente está se desenvolvendo rapidamente na base chavista. Odeiam a burguesia e a burocracia reformista. Estão abertos às idéias do marxismo revolucionário. Isto ficou patente na excelente acolhida dada ao novo periódico marxista Luta de Classes, cujo primeiro número se esgotou quase que imediatamente.
Os camaradas de Luta de Classes estarão nas primeiras filas da luta pela vitória do PSUV nas eleições de setembro. Nossa primeira tarefa, e mais urgente, é a de derrotar a contra-revolução. Mas será impossível derrotar a contra-revolução sem uma luta implacável contra a burocracia e a quinta coluna burguesa dentro do movimento chavista. Baseando-nos nas forças vivas da sociedade venezuelana, nos trabalhadores, nos camponeses e na juventude revolucionária, vamos levar a luta até o final. Uma coisa é absolutamente certa: A Revolução Bolivariana triunfará como uma revolução socialista ou não triunfará nunca.
Patrick Larsen e Alan Woods
Caracas-Londres, 05 de julho de 2010.
O PSUV e as eleições de Setembro
O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), dirigido por Chávez, acabou de encerrar seu Congresso Nacional que durou 5 meses reunindo 780 delegados eleitos por 2 milhões e meio de filiados ao partido. O PSUV tem mais de 7 milhões de filiados, num país de 25 milhões de habitantes – seria como se o PT tivesse cerca de 50 milhões de filiados no Brasil e nas eleições internas participassem 20 milhões de filiados em plenárias de base!
Logo após o encerramento desse Congresso ocorreram as prévias (eleições internas do PSUV) para definir os candidatos a deputado que concorrerão nas eleições de 26 de Setembro de 2010. Cerca de 3.500 pré-candidatos de todo o país disputaram 167 vagas a que o PSUV tem direito.
Candidatos da burocracia do partido, utilizando-se de suas posições e cargos no aparato de Estado, com muito dinheiro e cabos eleitorais, impuseram uma disputa desleal contra milhares de candidatos da base do partido, lideranças operárias e populares que não dispunham de recursos, desenvolvendo campanhas independentes.
Além disso há vários circuitos onde a base do partido suspeita de fraude; onde candidatos da base teriam conseguido mais votos do que o candidato da burocracia, mas a apuração mostrou o contrário.
Burocratas x Trabalhadores
Uma ferrenha luta política se trava dentro do PSUV. Reformistas e burocratas se enfrentam a militantes e quadros operários pelo controle do partido. A base operária luta por definí-lo como um partido de classe, independente da burguesia, que seja um instrumento na luta para aprofundar a revolução socialista na Venezuela.
Hoje se reproduz na Venezuela uma luta semelhante à que se deu na origem do PT, há 30 anos. Também aqui, reformistas, ex-stalinistas e burocratas propunham que o PT fosse definido como “partido de toda a sociedade”. Contra essa posição lutaram os militantes operários e socialistas do partido pela concepção de “partido de classe”, o PT sem patrões, classista e socialista.
Entretanto, uma diferença importante é que em 2007 o PSUV já nasce no governo e, portanto, já nasce com um setor de burocratas fortemente ligados ao aparato de Estado que no PT levou anos para se desenvolver. O PSUV traz para dentro de si todas as contradições da Revolução Venezuelana e a luta de classes se dá também dentro do partido. Além disso, numa revolução tudo é mais acelerado.
Burocratas e reformistas por um lado e os melhores militantes da classe trabalhadora do outro, ambos tentando controlar e definir o caráter desse partido. O PSUV pode se construir como um partido operário independente ou ser uma criatura de sustentação da ordem. E do resultado dessa luta depende em grande parte o futuro da revolução venezuelana.
O futuro da Revolução em perigo
Todas as condições objetivas para a vitória da revolução na Venezuela estão dadas: a burguesia não consegue oferecer nenhuma alternativa para o país, está desmoralizada e dividida. A classe operária não aceita mais a volta da direita, está organizada e o povo está armado. O que falta é uma direção firme e um programa claro que aponte o que fazer.
Chávez deveria nacionalizar o sistema financeiro, a indústria, planificar a economia e colocá-la sob controle dos trabalhadores através dos Conselhos Comunais, Comunas e outras experiências de organismos de poder que já se desenvolvem na Venezuela, rumo à construção dos Conselhos de Deputados Operários, Camponeses e Soldados.
Em vez disso o Estado burguês segue intocado, a direção do PSUV e o Governo seguem aliados a alguns setores da burguesia e não completam a revolução. Isso dá mais tempo para a burguesia se recompor. E dessa forma a luta continua se dando no terreno do inimigo, ou seja, no quadro das instituições burguesas. Por isso agora a burguesia joga peso e busca utilizar as eleições de 26 de Setembro para reorganizar suas forças.
Mas nada está definido. Uma revolução em curso é uma realidade muito complexa, cheia de contradições que envolvem muitos fatores. É nessa situação contraditória que Chávez chama a constituição de uma Internacional anti-imperialista, anti-capitalista e socialista! Declara publicamente que a burguesia é a classe inimiga de toda a humanidade e diz que precisa ser derrotada em todos os países!
Apesar de as forças organizadas do marxismo ainda serem pouco numerosas dentro do PSUV, é impressionante a audiência que as idéias marxistas têm na base de massas do partido. E confusões de todo tipo mesclam propostas reformistas com propostas revolucionárias.
Há candidatos a deputado que propõem leis que permitam aos conselhos comunais começar a legislar, mas mantendo a Assembléia Nacional e todas as instituições do Estado burguês. Tudo pode acontecer!
O importante é que cada vez mais se desenvolve o senso crítico das bases pesuvistas em relação à direção do partido. No site da seção venezuelana da Corrente Marxista Internacional pode-se ler um artigo que relata a realização de um encontro de balanço das internas do partido, que reuniu vários grupos de esquerda do PSUV que estão buscando desenvolver as idéias do marxismo.
Caio Dezorzi
15 de Maio de 2010
O povo em armas
Oito anos atrás aconteceu algo que não tem precedentes na história da América Latina. O golpe reacionário de 11 de Abril, em que a oligarquia venezuelana, em colaboração com a Embaixada EUA e da CIA, derrubou o governo democraticamente eleito, foi derrotado por uma revolta espontânea das massas.
Naquele dia, a história foi feita. Homens e mulheres comuns saíram às ruas, arriscando suas vidas para defender a Revolução Bolivariana. Sem partido, sem liderança e sem perspectivas claras do que outros fariam para derrotar o golpe de Estado, os trabalhadores, camponeses e jovens revolucionários, mulheres e homens, jovens e velhos, marcharam aos milhares para os portões do Palácio de Miraflores para exigir a libertação de Presidente Chávez. Os soldados passaram para o lado do povo, e o golpe de Estado em colapso.
Estes acontecimentos heróicos só podem ser comparados aos de Barcelona em julho de 1936, quando os trabalhadores, armados com velhas espingardas de caça e tudo o que poderia colocar em suas mãos, invadiram o quartel e derrubaram os reacionários fascistas. Se alguém duvida que esta foi uma verdadeira revolução, eles só têm de estudar os acontecimentos de Abril de 2002.
Nos últimos anos, esses eventos têm se transformado em uma celebração da Revolução. A Avenida Bolívar, no centro de Caracas sempre é um mar de camisetas vermelhas e agitando bandeiras. Mas este ano o cenário era bem diferente do que eu lembrava. Ao invés de um mar de vermelho, a Avenida Bolívar foi transbordando com um mar verde de camuflagem. Este foi o dia da Milícia Popular - uma demonstração do poder de um povo em armas.
À medida que eu caminhava ao longo da Avenida, as fileiras de milicianos e milicianas (havia muitas mulheres também com uniformes) pareciam não ter fim. Aqui, mais uma vez um podia sentir o poder invencível das massas. Mas agora havia um elemento diferente. Ali estavam milhares e milhares de trabalhadores das fábricas, os camponeses das aldeias, e as crianças das escolas e faculdades, expressando a sua vontade de lutar, de armas na mão, para defender a Revolução contra os inimigos - tanto externos quanto internos.
Sob um sol escaldante, o povo reunido - as tradicionais camisetas vermelhas do chavistas ao lado da milícia “verde-camuflagem”. Ao longo da Avenida, os alto-falantes tocavam slogans revolucionários: contra o imperialismo, contra a burguesia, para a Revolução, para o socialismo, e para Chávez: "A Direita ainda está preparando outro 11 de abril, mas agora as pessoas estão armados! Viva a revolução bolivariana! Viva o povo armado! Viva Chávez!"
As pessoas subiam em árvores e postes para ver melhor e para exibir cartazes com slogans de militantes, enquanto alguns fizeram um lucro rápido vendendo chapéus, camisetas e bebidas geladas (que eram muito procurados). Houve um barulho ensurdecedor da música - ritmos latino-americanos com palavras revolucionárias, interrompida por cânticos e slogans. A milícia foi organizada por grupos que apresentaram as suas origens: os jovens adolescentes das escolas e dos camponeses, com chapéus de palha e tratores escritos “Bielorrússia” em sua lateral.
Para a retaguarda, a milícia estava desarmada, mas quem se aproximasse da manifestação via-se que todo mundo estava segurando um AK-47 de fabricação russa, a arma mais eficiente e versátil, leve e fácil de usar. Nos últimos anos, Chávez tem comprado grandes quantidades dessas armas da Rússia. Washington e seus meios de comunicação contratados fizeram um barulho tremendo, alegando que essas armas são destinadas para os guerrilheiros das FARC na Colômbia. Agora todos podem ver para que eles realmente estão destinados.
Enquanto esperam a chegada do presidente, as milícias estavam relaxadas, ou sentavam no chão para comer um sanduíche. Alguns descansavam em seus rifles, e um ou dois até tinham seus rostos repousados no AK-47 - uma prática um tanto arriscada, se poderia pensar. Na verdade, um sargento profissional, sem dúvida, teria um ataque cardíaco, olhando para estes civis mais ou menos treinados com armas.
Mas essa impressão seria inteiramente falsa. Estas milícias são os descendentes diretos dos guerrilheiros cubanos, das milícias que combateram Franco na Guerra Civil Espanhola, das milícias de trabalhadores que derrubou o czar da Rússia, em 1917, e se formos ainda mais para trás na história dos exércitos da Revolução Francesa e as milícias da revolução americana do século 18.
Nenhuma dessas forças eram profissionais e não estavam em conformidade com as normas de um exército profissional burguês. Mas eles não lutam por causa disso, e em mais de um caso (Espanha vem à mente) a tentativa de forçá-los para o formato de um exército profissional teve efeitos negativos no seu espírito de luta.
No final da tarde, um clima de expectativa podia ser percebido. A milícia começava a formar filas. A multidão nas calçadas se empurrava para a frente para ver seu herói. Chávez aparece vestido de uniforme militar, cavalgando o dorso de um veículo aberto - um caminhão do exército comum - saudando e acenando para a milícia e a multidão. As milícias marcham em direção à tribuna onde Chávez faria seu discurso.
Seu discurso foi menor do que no passado, mas foi direto ao ponto. Recordando os acontecimentos dramáticos de Abril de 2002, ele tira uma espada magnífica e mostra-o a multidão. É a espada de Simón Bolívar - El Libertador (O Libertador). Diz ao povo que a libertação da América Latina não foi alcançado por 200 anos e só pode ser alcançado através da revolução socialista.
No tipo de gesto dramático que é característica dele, ele exige um juramento sagrado dos presentes: a de que eles nunca descansarão até que esta tarefa é realizada. As milícias repetir as palavras em voz alta, segurando seus rifles no ar. "A milícia é o povo, e o povo é a milícia", proclama.
Em seguida, Chávez narra os acontecimentos de Abril de 2002, a partir do golpe fascista de 11 de Abril com o levante popular-militar de 13 de Abril. "Eu estive pensando muito sobre isso", diz ele. "Desde a década de 1970, algumas pessoas têm sonhado com uma rebelião popular-militar. Mas isso nunca ocorreu. A década de 1980 foi um período negro, que terminou no Caracazo de 1989, com um massacre de civis desarmados”.
Chávez lembrou que, em seguida, ele e um grupo de oficiais do exército progressiva tentaram encenar uma rebelião em 1992: "Nós fracassamos porque se tratava de um golpe militar sem o povo", concluiu. Após um período na prisão, ele lembrou a formação de um movimento de massa: o Movimento Bolivariano, que chegou ao poder nas eleições de 1998. Mas a oligarquia não perdeu tempo na preparação do golpe de 2002.
Chávez recordou os homens e as mulheres que morreram no golpe, além dos muitos outros feridos. Ao contrário do mito tão assiduamente difundido pela mídia no Ocidente sobre o regime ditatorial e repressivo, na Venezuela, ninguém está na prisão por esses crimes, e oito anos depois, os inquéritos judiciais ainda estão a arrastar-se: "Que não haja impunidade para este massacre, como tem sido a impunidade de tantos outros massacres da nossa história! ", disse.
Ele então passou a dizer que o sangue destes mártires da Revolução agiu como um catalisador para a Revolução. "Imediatamente após o 11 de Abril, começaram as detenções e caçadas, as ameaças na televisão e outras mídias. Mas isso despertou todo o poder latente reprimido das massas que haviam sido reprimidas por tanto tempo ", disse ele. "Isto deu origem à maior rebelião da nossa história - a revolta popular que tinha esperado tanto tempo para ver."
"Esta foi uma revolta contra a burguesia e o imperialismo. Este último tinha calculado que esse levantamento seria derrubado em sangue pelo exército, como aconteceu no Caracazo. Mas não só nossos soldados se recusaram a disparar sobre o povo, como passou para o lado do povo. A burguesia e o imperialismo tinham a surpresa de suas vidas”.
Chávez assinalou que o imperialismo dos EUA participou ativamente no golpe. Helicópteros, aviões e espiões dos EUA estavam sobrevoando o espaço aéreo venezuelano, além de um submarino e um porta-aviões estavam em águas venezuelanas à espera de intervenção. Mas o movimento das massas forçou a se retirar.
Desde então a mídia burguesa tentou limpar aquela data fora do calendário, mas as massas têm mantido viva. "Eles não podem limpar abril do calendário, assim como eles podem acabar com Janeiro, Fevereiro ou qualquer outro mês."
Chávez observou que, se eles tivessem conseguido esmagar a revolução venezuelana, teria desferido um duro golpe contra o movimento revolucionário na América Latina. "Em nossos ombros pesava uma grande responsabilidade", disse. "Os povos da América Latina estão nos procurando para sua salvação." Admitiu que a Revolução está longe de ser concluída e que havia uma quantidade colossal ainda a ser feito, ele apelou para a paciência. “Depois de sua primeira década, a revolução apenas começou", disse ele.
Chávez, em seguida, advertiu que a ameaça da contra-revolução não tinha ido embora, e que havia uma conspiração para assassiná-lo. Ele disse que se isso ocorresse: "Não perca a cabeça, mantenha a calma. Você sabe o que você tem que fazer: tomar o poder em suas próprias mãos - todo o poder! Expropriar os bancos, as indústrias, os monopólios que permanecem nas mãos da burguesia. "
Virando-se para as eleições de Setembro, ele advertiu: "Não podemos permitir que a burguesia passe a assumir o controle da Assembléia Nacional. Se o fizerem, eles vão usar isso para desestabilizar o país e criar as condições para um outro 11 de Abril. Temos de vencer dois terços das vagas, a fim de prosseguir com nosso programa. "
Ele alertou que a burguesia não teve como repetir o que aconteceu em abril de 2002, porque as pessoas estavam armadas e agora iria esmagar qualquer tentativa contra-revolucionária. Ele terminou com as palavras: “Viva a Milícia Nacional! Viva o povo em armas! Viva a Revolução Socialista! Pátria, socialismo ou morte!”.
Caracas, 13 abril de 2010.
Relato de um camarada brasileiro na Venezuela
Faz só pouco mais de 5 semanas que estou na Venezuela. Mas tenho a sensação de estar aqui há meses. Vim para cá para trabalhar junto aos camaradas da CMI (Corrente Marxista Internacional) na preparação de uma conferência de lançamento de um novo jornal chamado “Lucha de Clases”.
Já vinha acompanhando de perto a revolução venezuelana através da CMI, com camaradas venezuelanos que já foram ao Brasil e camaradas brasileiros que vieram à Venezuela, principalmente do Movimento das Fábricas Ocupadas, além de participar e ajudar a organizar no Brasil a campanha de solidariedade com a revolução “Tirem as Mãos da Venezuela” (a campanha também tem sites internacionais em espanhol e inglês). Mas estar aqui fisicamente, poder conversar com o povo, apertar a mão, passar calor, pegar o ônibus, o metrô, comer arepa, cachapa, assistir à TV, escutar Ali Primera, ver os murais e grafites, ser atendido por um médico cubano na Missão Barrio Adentro, participar das marchas, de reuniões, encontros, atividades do PSUV, de assembléias dos movimentos populares, de trabalhadores das fábricas ocupadas, tudo isso torna possível uma compreensão muito mais ampla e um pouco mais profunda do que passa nesse país vizinho.
Poderia relatar aqui muitas experiências, mas o tempo é curto para isso agora. Para ficar em alguns exemplos começo por contar sobre o dia em que peguei uma camiñoneta (lotação, micro-ônibus) no Barrio (favela) Simon Rodriguez e aí estavam duas senhoras conversando. Uma explicava para a outra que no dia anterior comemorou-se o 80º aniversário da orquestra municipal de Caracas e que todos os anos a orquestra se apresentava no Teatro Teresa Carreño (o maior teatro da cidade) e a maior parte do povo não tinha oportunidade de assistir. Mas que no dia anterior havia encerrado um mês de apresentações da orquestra em praças públicas e ela tinha assistido justo no dia anterior numa praça. Ela disse que nos últimos 80 anos nunca a orquestra municipal havia tocado para o povo (e acho que ela tinha idade suficiente para saber isso) e que era a primeira vez que ela escutava ao vivo uma orquestra. E então disse à outra senhora, quase chorando, que tinha sido a coisa mais maravilhosa que ela tinha escutado em toda a sua vida. Uma senhora muito simples, moradora de uma favela de Caracas, agora podia apreciar música de orquestra gratuitamente. E mais do que isso: depois me inteirei de que os músicos que compõem a orquestra também são em sua maior parte moradores das favelas de Caracas (resultado de um programa do Governo).
Não é isso que prova que há uma revolução na Venezuela. Qualquer governo, inclusive de direita, poderia implementar um programa para levar música à população mais pobre. A diferença é que na Venezuela o povo tem consciência de que mudanças como essa são resultado de sua própria luta por mudar toda a sociedade.
Uma revolução em qualquer país pode começar, de maneira geral, quando a classe dominante está em crise, dividida, não é mais capaz de governar como governava antes e as classes exploradas já não aceitam mais ser exploradas como antes, se dispondo a lutar nas ruas, fábricas, escolas, comunidades, para buscar mudar a sua vida de exploração, fome, miséria, desemprego, violência, humilhação.
Aqui na Venezuela esse é um processo que teve início nos anos 80, que se agudizou com o Caracazo em 1989 e que encontrou na eleição de Chávez um meio de se expressar.
Caracazo é o nome dado ao evento em que o então presidente da Venezuela, Carlos Andrés Perez, mandou o exército reprimir manifestações populares de massa em Caracas (1989). Até hoje o número de mortos é desconhecido, mas passa de 3 mil. Chávez, que era Tenente-Coronel do batalhão de pára-quedistas do exército na época, se indignou com a atitude das forças armadas, pois acreditava que o exército servia para proteger o povo venezuelano e não para atirar contra ele. Chávez reúne um grupo de amigos militares e tenta derrubar o Governo de Perez em 1992. Não consegue e vai preso por 2 anos. Mas se torna um herói popular, pois derrubar o Governo assassino de Perez era a vontade da maioria do povo venezuelano. Por isso a maioria elege Chávez presidente em 1998.
Em 1999 Chávez consegue a aprovação de uma reforma constitucional que, embora tímida, era inaceitável para a oligarquia e representava alguns avanços para o povo. Chávez passa então a utilizar a receita que a Venezuela obtém com a exportação do petróleo em projetos sociais, principalmente nas áreas de educação e saúde.
Todo 11 tem seu 13
Na TV explicavam que Chávez havia renunciado e fugido. Mas mentira tem perna curta e aos poucos chegava aos ouvidos dos trabalhadores das comunidades mais pobres de Caracas que Chávez estava seqüestrado. Então algo inesperado aconteceu. Em menos de 48 horas, no dia 13 de Abril, milhões de venezuelanos saíram às ruas, milhares cercaram o Palácio de Miraflores em Caracas e derrubaram a ditadura recém-nascida de Carmona. Os soldados do exército - que são parte do povo, são trabalhadores e filhos de trabalhadores - confraternizaram com o povo, desobedeceram as ordens dos generais golpistas e resgataram o presidente Chávez (há um vídeo-documentário muito bom que relata esse episódio chamado “A Revolução não será televisionada”).
Dia 11 foi uma Sexta e dia 13 um Domingo. O povo venezuelano é bastante religioso e não faltaram comparações com a morte e ressurreição de Cristo. Chávez saiu ainda mais fortalecido desse episódio, entretanto, junto com Chávez, o povo saiu fortalecido. Homens e mulheres do povo perceberam que mesmo aquele que eles consideram seu herói só pôde sobreviver e voltar a cumprir o seu papel porque o povo foi capaz de derrotar a tirania. O povo é herói e se reconhece como tal. Cada mulher e homem trabalhador na Venezuela aprendeu desde então a não baixar mais a cabeça, a se respeitar como sujeito que atua na sociedade e que pode mudar a sua história.
A estratégia do imperialismo
Mas a direita não estava completamente derrotada e gozava de forte apoio da classe média e do imperialismo EUA. Em Dezembro de 2002 começa uma nova estratégia para desestabilizar e derrubar o governo Chávez: o Paro Petroleiro. Buscava parar a produção de petróleo no país, desestabilizando a economia e colapsando o governo. A oposição teve êxito por 4 meses, mas foram os próprios trabalhadores da PDVSA (companhia estatal de petróleo) que desobedeceram as ordens de seus superiores, tomaram as instalações por todo o país, ignoraram o sistema informatizado e colocaram a PDVSA pra funcionar manualmente, abrindo as válvulas no braço. Mais uma vez o povo foi o herói.
Em 2004 ocorre um "referendo revogatório" (como um plebiscito para saber se o povo aprova a continuidade do presidente ou se revoga seu mandato antes que acabe). O povo venceu nas urnas mais uma vez, mesmo com os "escuálidos" (como são chamados os oposicionistas aqui) utilizando todos os canais de TV privados 24h por dia dizendo que Chávez devia ser derrubado.
Da luta anti-imperialista à luta pelo Socialismo
Cada vez mais Chávez percebe que não há como governar em acordo com setores dos empresários. Esses querem a sua cabeça e é apoiando-se no povo que poderá continuar governando. Chávez começou sua jornada "para libertar o povo", como ele mesmo diz, inspirado pelas idéias e história de Simon Bolívar (o líder da independência de 1810). E começou com a tentativa de golpe de 1992. Fracassou e então tentou através das eleições regulares burguesas. Venceu mas aprendeu que vencer eleições não muda muita coisa, é preciso mais. A partir de 2004 começa a falar de Socialismo.
Desde então todos na Venezuela falam de socialismo e de revolução. Há padarias “socialistas”, lava-rápidos “socialistas”, empresas “socialistas” e até banqueiros “socialistas”. Inclusive partidos de direita se dizem “revolucionários”. Enfim, muitos se apropriam do discurso do socialismo, buscando atribuir-lhe muitos significados estranhos, mas ainda não há nada de socialismo na Venezuela. A revolução só começou, mas ainda não terminou... Apesar de algumas nacionalizações, a economia segue nas mãos do capital privado. O controle da produção industrial segue nas mãos dos oligarcas escuálidos e de alguns outros empresários e banqueiros que se dizem “chavistas”.
O que parece é que Chávez quer avançar para o socialismo, mas não sabe como fazer. A burocracia do Estado burguês sabota a revolução desde dentro, impedindo medidas do governo de serem aplicadas, desviando verbas, etc.
As Missões
O Governo criou as chamadas "Missões". Há missões de alfabetização, de ensino médio, de ensino técnico, de ensino superior, de saúde, de moradia, de cultura, de esporte. Não tenho tempo para falar de todas, mas para ter uma idéia geral, com a Missão Barrio Adentro (saúde) todas as pessoas no país têm acesso a atendimento médico e medicamentos gratuitamente, sem filas. Eu mesmo precisei usar o serviço duas vezes, uma vez em Mérida (uma pequena cidade nos Andes, na parte oeste do país) e outra vez numa favela de Caracas. Recebi todos os medicamentos gratuitamente, tirei radiografia gratuitamente e fui atendido diretamente por um médico (não por um enfermeiro ou um funcionário fazendo triagem) e um médico cubano! Não havia fila! Porque foram criados postos de saúde (CDIs) suficientes para atender a toda a população. Ninguém mais morre na Venezuela em fila de hospital ou de doenças tratáveis, como ocorre na maior parte dos países dominados.
Agora falando das Missões Ribas (alfabetização), Robinson (ensino médio), Che Guevara (ensino técnico) e Sucre (ensino superior), na Venezuela todos sabem ler e escrever! Conheci muitas donas de casa, operários, aposentados que estão cursando agora o ensino médio através das missões e que antes da revolução não sabiam ler nem escrever. Na Venezuela todos que concluem o ensino médio podem cursar o ensino superior gratuitamente. Não precisam fazer vestibular! Podem fazer, se querem, para entrar na Universidade Bolivariana (UBV), mas se preferirem ou se não houver vagas aí, há vagas para todos na Missão Sucre – onde inclusive os conteúdos, grade curricular, etc. são discutidos democraticamente por conselhos com a participação de estudantes e professores!
Num país atrasado economicamente como é a Venezuela esse tipo de avanço, de desenvolvimento, só pode ocorrer com uma revolução em curso. A burguesia nacional, completamente submetida ao imperialismo, jamais poderá cumprir essa tarefa. Mas a burguesia segue sendo a classe dominante na Venezuela. Isso tudo só é possível por que a revolução permite uma situação contraditória onde o povo trabalhador começa a exercer seu poder de maneira ainda limitada enquanto não conclui definitivamente a revolução.
Para concluir a revolução é necessário que os grandes meios de produção, a indústria, a terra, o sistema financeiro, deixem de ser controlados pela minoria oligarca parasita da sociedade e passem a ser controlados pelo povo organizado. As condições para isso estão dadas na Venezuela, só falta uma direção clara para executar isso.
Muitas votações e poucas transformações
Chávez foi reeleito em 2006 com um número ainda maior de votos e os deputados chavistas ocuparam 100% das vagas na Assembléia Nacional, pois a direita boicotou as eleições. Desde então o Governo poderia aprofundar a revolução verticalmente de maneira relativamente pacífica e fácil. Mas Chávez peca por “excesso de democracia”: Não coloca os líderes da oposição golpista na cadeia (que até hoje continuam defendendo publicamente o golpe de estado); Continua permitindo que as emissoras de TV privadas transmitam as mais absurdas distorções e manipulações de informação; E quando propôs uma reforma constitucional (que não seria a vitória da revolução, mas permitiria avançar em muitos aspectos), que poderia ter sido aprovada pela Assembléia Nacional sem opositores, ele propõe um plebiscito!
Isso permite à oposição a entrar em campanha contra a reforma. A oposição não ganha mais votos do que já tinha nas eleições anteriores, mas as bases chavistas não dão a mesma importância e quase metade não vai às urnas. As massas estão cansadas de votar, votar, votar e não ver mudanças mais profundas. Para a maioria dos venezuelanos, esse plebiscito de 2007 não iria mudar nada, era mais uma votação, e então não deram importância. Resultado é que por uma diferença de 0,2% ganhou o NÃO.
Esse é o maior risco que corre hoje a revolução venezuelana: o cansaço e desânimo das massas frente à paralisia do processo. A burguesia e o imperialismo não têm as condições hoje de atacar a revolução com um golpe armado, mas apostam no desgaste: Param de investir no país; Diminuem a produção de alimentos; Sabotam os programas do Governo se utilizando de agentes burocratas dentro do aparato de Estado; Infiltram milícias paramilitares colombianas para impulsionar a criminalidade nas comunidades mais pobres, etc.
O povo em armas
No dia 13 de Abril, em comemoração aos 8 anos do Contra-Golpe, uma grande marcha foi realizada na Avenida Bolívar em Caracas. Todos os anos ocorrem grandes marchas nesta data lembrando aqueles que foram assassinados, o golpe da direita em 11 de Abril e a insurreição do povo que em confraternização com os soldados retomou o poder em 13 de Abril.
Mas nos anos anteriores essa marcha tinha como característica um mar de homens e mulheres vestidos de vermelho. Desta vez havia muita gente de vermelho também, mas a maioria estava de verde! Com uniformes militares e carregando armas russas AK 47. Entretanto as dezenas de milhares de homens e mulheres não eram militares do exército regular e sim trabalhadores fabris, trabalhadores rurais, estudantes, donas de casa, professores, servidores públicos, etc. Era o povo em armas!
Na avenida estavam perfiladas as “milícias populares” conformadas por qualquer um que queira participar com treinamento aos fins de semana nos seus próprios Barrios. Em seu discurso Chávez avisou que a burguesia não poderia mais tentar um golpe como o de 11 de Abril de 2002, porque agora o povo está armado. E ele tem razão!
A marcha durou o dia inteiro, até a noite. Nos falantes músicas revolucionárias entrecortadas por intervenções contra o imperialismo, o capitalismo e em favor do socialismo. Chávez só chegaria para fazer seu discurso por volta das 17h.
Isso representa uma profunda consciência do povo venezuelano de que as classes dominantes sempre usam discursos pacifistas e anti-violência para promover o desarmamento do povo justamente para poder explorar o povo sem que este possa resistir. Enquanto isso as classes dominantes se armam até os dentes através do aparato de Estado, com arsenais de guerra e armamento policial. E sempre que lhes convém não hesitam em usar toda a violência contra o povo, além de esquecerem-se de todo o discurso pacifista quando decidem fazer as guerras, que nada mais são do que negócios para eles.
A única forma de conquistar a paz e acabar com a violência é tirando do controle de cada país e do mundo todo a classe capitalista, que mata bilhões de seres humanos com suas guerras, crises econômicas, desemprego, fome, miséria, drogas, repressão policial e todo tipo de atividade criminosa em nome do lucro. Para isso os trabalhadores devem se armar!
Confraternização entre trabalhadores e soldados
Em seu discurso Chávez explicou que a liberação dos povos da América Latina ainda não foi alcançada nesses 200 anos e que só poderá ser alcançada com o socialismo.
Esses desfiles militares são tradicionais no dia da independência, mas este ano ocorreu algo que não havia ocorrido nunca antes: Numa tarde ensolarada, centenas de milhares de pessoas vestidas de vermelho que assistiam ao desfile militar, quando este acabou, foram se confraternizar com os militares. Crianças, mulheres e homens com camisas e bonés do PSUV subiam em centenas de tanques de guerra e carros de combate tirando fotos, conversando com os militares e entoando palavras de ordem socialistas.
Essa confraternização entre o povo e o exército representa uma mudança de qualidade importante. Em geral os povos da América Latina não confiam muito nas forças armadas de seus próprios países, principalmente por conta das ditaduras militares que cobriram o continente no século 20. Para o povo venezuelano, além da ditadura militar de 1948 a 1958, está muito fresco na memória o Caracazo de 1989. Essa confraternização de ontem demonstra que o povo entende que agora controla as forças armadas, que essas são leais ao povo, são parte do povo.
Em seu discurso de 13 de Abril Chávez disse que continuam as conspirações do imperialismo para matá-lo. E alertou que se acaso tentarem um novo 11 de Abril o povo sabe o que fazer: deve radicalizar a revolução, tomar o poder, tomar todas as fábricas, todas as terras, varrer a burguesia do país e implantar o socialismo. A questão que fica é: Por que o povo deve esperar um novo golpe para fazer isso? Por que esperar que Chávez seja morto para fazer isso? Por que não fazer agora mesmo?
A luta de classes continua e mais cedo ou mais tarde uma das classes terá que perder essa batalha. Quanto mais durar essa situação absolutamente contraditória, maior é o risco da revolução ser derrotada pelo desânimo, cansaço e apatia.
Explicar isso tudo e aprofundar a organização da classe através do PSUV, dos sindicatos, dos conselhos, das milícias é a tarefa urgente na Venezuela. Para isso o jornal “Lucha de Clases” vai jogar um papel fundamental.
Por fim, quero dizer a todos que estão lendo esse relato que a melhor maneira de ajudar o povo venezuelano a cumprir sua tarefa histórica de emancipação e libertação é ajudarmos o povo brasileiro a avançar no mesmo sentido. No Brasil a situação está mais difícil para o movimento revolucionário em comparação com a Venezuela, mas se não perdemos a confiança na capacidade de luta da classe trabalhadora e da juventude, sabemos que nada poderá conter a roda da história, nem no Brasil e nem em nenhum país do mundo. As velhas formas de dominação já caducas buscam resistir à história lançando mão de todo o poder econômico, militar, midiático, tecnológico, mas o novo sempre vem. Como disse Che Guevara: “Eles podem matar uma, duas, três flores, mas jamais poderão deter a primavera”.
Abraços e saudações a todos! Até a volta.
Caio Dezorzi
Caracas, 20 de Abril de 2010.