Relato de um camarada brasileiro na Venezuela

Em sua estadia por quase um mês e meio na Venezuela, com um olhar atento e participando de atividades da luta de classes, o relato marxista do camarada Caio nos permite sentir um pouco os ares da revolução enquanto alerta para os perigos que a ameaçam.

Faz só pouco mais de 5 semanas que estou na Venezuela. Mas tenho a sensação de estar aqui há meses. Vim para cá para trabalhar junto aos camaradas da CMI (Corrente Marxista Internacional) na preparação de uma conferência de lançamento de um novo jornal chamado “Lucha de Clases”.

Já vinha acompanhando de perto a revolução venezuelana através da CMI, com camaradas venezuelanos que já foram ao Brasil e camaradas brasileiros que vieram à Venezuela, principalmente do Movimento das Fábricas Ocupadas, além de participar e ajudar a organizar no Brasil a campanha de solidariedade com a revolução “Tirem as Mãos da Venezuela” (a campanha também tem sites internacionais em espanhol e inglês). Mas estar aqui fisicamente, poder conversar com o povo, apertar a mão, passar calor, pegar o ônibus, o metrô, comer arepa, cachapa, assistir à TV, escutar Ali Primera, ver os murais e grafites, ser atendido por um médico cubano na Missão Barrio Adentro, participar das marchas, de reuniões, encontros, atividades do PSUV, de assembléias dos movimentos populares, de trabalhadores das fábricas ocupadas, tudo isso torna possível uma compreensão muito mais ampla e um pouco mais profunda do que passa nesse país vizinho.

Poderia relatar aqui muitas experiências, mas o tempo é curto para isso agora. Para ficar em alguns exemplos começo por contar sobre o dia em que peguei uma camiñoneta (lotação, micro-ônibus) no Barrio (favela) Simon Rodriguez e aí estavam duas senhoras conversando. Uma explicava para a outra que no dia anterior comemorou-se o 80º aniversário da orquestra municipal de Caracas e que todos os anos a orquestra se apresentava no Teatro Teresa Carreño (o maior teatro da cidade) e a maior parte do povo não tinha oportunidade de assistir. Mas que no dia anterior havia encerrado um mês de apresentações da orquestra em praças públicas e ela tinha assistido justo no dia anterior numa praça. Ela disse que nos últimos 80 anos nunca a orquestra municipal havia tocado para o povo (e acho que ela tinha idade suficiente para saber isso) e que era a primeira vez que ela escutava ao vivo uma orquestra. E então disse à outra senhora, quase chorando, que tinha sido a coisa mais maravilhosa que ela tinha escutado em toda a sua vida. Uma senhora muito simples, moradora de uma favela de Caracas, agora podia apreciar música de orquestra gratuitamente. E mais do que isso: depois me inteirei de que os músicos que compõem a orquestra também são em sua maior parte moradores das favelas de Caracas (resultado de um programa do Governo).

Não é isso que prova que há uma revolução na Venezuela. Qualquer governo, inclusive de direita, poderia implementar um programa para levar música à população mais pobre. A diferença é que na Venezuela o povo tem consciência de que mudanças como essa são resultado de sua própria luta por mudar toda a sociedade.

Uma revolução em qualquer país pode começar, de maneira geral, quando a classe dominante está em crise, dividida, não é mais capaz de governar como governava antes e as classes exploradas já não aceitam mais ser exploradas como antes, se dispondo a lutar nas ruas, fábricas, escolas, comunidades, para buscar mudar a sua vida de exploração, fome, miséria, desemprego, violência, humilhação.

Aqui na Venezuela esse é um processo que teve início nos anos 80, que se agudizou com o Caracazo em 1989 e que encontrou na eleição de Chávez um meio de se expressar.

Caracazo é o nome dado ao evento em que o então presidente da Venezuela, Carlos Andrés Perez, mandou o exército reprimir manifestações populares de massa em Caracas (1989). Até hoje o número de mortos é desconhecido, mas passa de 3 mil. Chávez, que era Tenente-Coronel do batalhão de pára-quedistas do exército na época, se indignou com a atitude das forças armadas, pois acreditava que o exército servia para proteger o povo venezuelano e não para atirar contra ele. Chávez reúne um grupo de amigos militares e tenta derrubar o Governo de Perez em 1992. Não consegue e vai preso por 2 anos. Mas se torna um herói popular, pois derrubar o Governo assassino de Perez era a vontade da maioria do povo venezuelano. Por isso a maioria elege Chávez presidente em 1998.

Em 1999 Chávez consegue a aprovação de uma reforma constitucional que, embora tímida, era inaceitável para a oligarquia e representava alguns avanços para o povo. Chávez passa então a utilizar a receita que a Venezuela obtém com a exportação do petróleo em projetos sociais, principalmente nas áreas de educação e saúde.

Todo 11 tem seu 13

Em 2002, no dia 11 de Abril, os militares leais à oligarquia petroleira e ao imperialismo EUA, junto com os grandes canais de TV privados, dão um golpe militar, seqüestram Chávez e o levam para uma ilha, cortam o sinal da emissora estatal de TV, reprimem os jornalistas internacionais e empossam um novo Presidente (Pedro Carmona) em nome da “Democracia”. Tudo isso apoiado pela “Sociedade Civil” com a igreja católica, os empresários, ONGs e sindicatos pelegos.

Na TV explicavam que Chávez havia renunciado e fugido. Mas mentira tem perna curta e aos poucos chegava aos ouvidos dos trabalhadores das comunidades mais pobres de Caracas que Chávez estava seqüestrado. Então algo inesperado aconteceu. Em menos de 48 horas, no dia 13 de Abril, milhões de venezuelanos saíram às ruas, milhares cercaram o Palácio de Miraflores em Caracas e derrubaram a ditadura recém-nascida de Carmona. Os soldados do exército - que são parte do povo, são trabalhadores e filhos de trabalhadores - confraternizaram com o povo, desobedeceram as ordens dos generais golpistas e resgataram o presidente Chávez (há um vídeo-documentário muito bom que relata esse episódio chamado “A Revolução não será televisionada”).

Dia 11 foi uma Sexta e dia 13 um Domingo. O povo venezuelano é bastante religioso e não faltaram comparações com a morte e ressurreição de Cristo. Chávez saiu ainda mais fortalecido desse episódio, entretanto, junto com Chávez, o povo saiu fortalecido. Homens e mulheres do povo perceberam que mesmo aquele que eles consideram seu herói só pôde sobreviver e voltar a cumprir o seu papel porque o povo foi capaz de derrotar a tirania. O povo é herói e se reconhece como tal. Cada mulher e homem trabalhador na Venezuela aprendeu desde então a não baixar mais a cabeça, a se respeitar como sujeito que atua na sociedade e que pode mudar a sua história.

A estratégia do imperialismo

Mas a direita não estava completamente derrotada e gozava de forte apoio da classe média e do imperialismo EUA. Em Dezembro de 2002 começa uma nova estratégia para desestabilizar e derrubar o governo Chávez: o Paro Petroleiro. Buscava parar a produção de petróleo no país, desestabilizando a economia e colapsando o governo. A oposição teve êxito por 4 meses, mas foram os próprios trabalhadores da PDVSA (companhia estatal de petróleo) que desobedeceram as ordens de seus superiores, tomaram as instalações por todo o país, ignoraram o sistema informatizado e colocaram a PDVSA pra funcionar manualmente, abrindo as válvulas no braço. Mais uma vez o povo foi o herói.

Em 2004 ocorre um "referendo revogatório" (como um plebiscito para saber se o povo aprova a continuidade do presidente ou se revoga seu mandato antes que acabe). O povo venceu nas urnas mais uma vez, mesmo com os "escuálidos" (como são chamados os oposicionistas aqui) utilizando todos os canais de TV privados 24h por dia dizendo que Chávez devia ser derrubado.

Da luta anti-imperialista à luta pelo Socialismo

Cada vez mais Chávez percebe que não há como governar em acordo com setores dos empresários. Esses querem a sua cabeça e é apoiando-se no povo que poderá continuar governando. Chávez começou sua jornada "para libertar o povo", como ele mesmo diz, inspirado pelas idéias e história de Simon Bolívar (o líder da independência de 1810). E começou com a tentativa de golpe de 1992. Fracassou e então tentou através das eleições regulares burguesas. Venceu mas aprendeu que vencer eleições não muda muita coisa, é preciso mais. A partir de 2004 começa a falar de Socialismo.

Desde então todos na Venezuela falam de socialismo e de revolução. Há padarias “socialistas”, lava-rápidos “socialistas”, empresas “socialistas” e até banqueiros “socialistas”. Inclusive partidos de direita se dizem “revolucionários”. Enfim, muitos se apropriam do discurso do socialismo, buscando atribuir-lhe muitos significados estranhos, mas ainda não há nada de socialismo na Venezuela. A revolução só começou, mas ainda não terminou... Apesar de algumas nacionalizações, a economia segue nas mãos do capital privado. O controle da produção industrial segue nas mãos dos oligarcas escuálidos e de alguns outros empresários e banqueiros que se dizem “chavistas”.

O que parece é que Chávez quer avançar para o socialismo, mas não sabe como fazer. A burocracia do Estado burguês sabota a revolução desde dentro, impedindo medidas do governo de serem aplicadas, desviando verbas, etc.

As Missões

O Governo criou as chamadas "Missões". Há missões de alfabetização, de ensino médio, de ensino técnico, de ensino superior, de saúde, de moradia, de cultura, de esporte. Não tenho tempo para falar de todas, mas para ter uma idéia geral, com a Missão Barrio Adentro (saúde) todas as pessoas no país têm acesso a atendimento médico e medicamentos gratuitamente, sem filas. Eu mesmo precisei usar o serviço duas vezes, uma vez em Mérida (uma pequena cidade nos Andes, na parte oeste do país) e outra vez numa favela de Caracas. Recebi todos os medicamentos gratuitamente, tirei radiografia gratuitamente e fui atendido diretamente por um médico (não por um enfermeiro ou um funcionário fazendo triagem) e um médico cubano! Não havia fila! Porque foram criados postos de saúde (CDIs) suficientes para atender a toda a população. Ninguém mais morre na Venezuela em fila de hospital ou de doenças tratáveis, como ocorre na maior parte dos países dominados.

Agora falando das Missões Ribas (alfabetização), Robinson (ensino médio), Che Guevara (ensino técnico) e Sucre (ensino superior), na Venezuela todos sabem ler e escrever! Conheci muitas donas de casa, operários, aposentados que estão cursando agora o ensino médio através das missões e que antes da revolução não sabiam ler nem escrever. Na Venezuela todos que concluem o ensino médio podem cursar o ensino superior gratuitamente. Não precisam fazer vestibular! Podem fazer, se querem, para entrar na Universidade Bolivariana (UBV), mas se preferirem ou se não houver vagas aí, há vagas para todos na Missão Sucre – onde inclusive os conteúdos, grade curricular, etc. são discutidos democraticamente por conselhos com a participação de estudantes e professores!

Num país atrasado economicamente como é a Venezuela esse tipo de avanço, de desenvolvimento, só pode ocorrer com uma revolução em curso. A burguesia nacional, completamente submetida ao imperialismo, jamais poderá cumprir essa tarefa. Mas a burguesia segue sendo a classe dominante na Venezuela. Isso tudo só é possível por que a revolução permite uma situação contraditória onde o povo trabalhador começa a exercer seu poder de maneira ainda limitada enquanto não conclui definitivamente a revolução.

Para concluir a revolução é necessário que os grandes meios de produção, a indústria, a terra, o sistema financeiro, deixem de ser controlados pela minoria oligarca parasita da sociedade e passem a ser controlados pelo povo organizado. As condições para isso estão dadas na Venezuela, só falta uma direção clara para executar isso.

Muitas votações e poucas transformações

Chávez foi reeleito em 2006 com um número ainda maior de votos e os deputados chavistas ocuparam 100% das vagas na Assembléia Nacional, pois a direita boicotou as eleições. Desde então o Governo poderia aprofundar a revolução verticalmente de maneira relativamente pacífica e fácil. Mas Chávez peca por “excesso de democracia”: Não coloca os líderes da oposição golpista na cadeia (que até hoje continuam defendendo publicamente o golpe de estado); Continua permitindo que as emissoras de TV privadas transmitam as mais absurdas distorções e manipulações de informação; E quando propôs uma reforma constitucional (que não seria a vitória da revolução, mas permitiria avançar em muitos aspectos), que poderia ter sido aprovada pela Assembléia Nacional sem opositores, ele propõe um plebiscito!

Isso permite à oposição a entrar em campanha contra a reforma. A oposição não ganha mais votos do que já tinha nas eleições anteriores, mas as bases chavistas não dão a mesma importância e quase metade não vai às urnas. As massas estão cansadas de votar, votar, votar e não ver mudanças mais profundas. Para a maioria dos venezuelanos, esse plebiscito de 2007 não iria mudar nada, era mais uma votação, e então não deram importância. Resultado é que por uma diferença de 0,2% ganhou o NÃO.

Esse é o maior risco que corre hoje a revolução venezuelana: o cansaço e desânimo das massas frente à paralisia do processo. A burguesia e o imperialismo não têm as condições hoje de atacar a revolução com um golpe armado, mas apostam no desgaste: Param de investir no país; Diminuem a produção de alimentos; Sabotam os programas do Governo se utilizando de agentes burocratas dentro do aparato de Estado; Infiltram milícias paramilitares colombianas para impulsionar a criminalidade nas comunidades mais pobres, etc.

O povo em armas

No dia 13 de Abril, em comemoração aos 8 anos do Contra-Golpe, uma grande marcha foi realizada na Avenida Bolívar em Caracas. Todos os anos ocorrem grandes marchas nesta data lembrando aqueles que foram assassinados, o golpe da direita em 11 de Abril e a insurreição do povo que em confraternização com os soldados retomou o poder em 13 de Abril.

Mas nos anos anteriores essa marcha tinha como característica um mar de homens e mulheres vestidos de vermelho. Desta vez havia muita gente de vermelho também, mas a maioria estava de verde! Com uniformes militares e carregando armas russas AK 47. Entretanto as dezenas de milhares de homens e mulheres não eram militares do exército regular e sim trabalhadores fabris, trabalhadores rurais, estudantes, donas de casa, professores, servidores públicos, etc. Era o povo em armas!

Na avenida estavam perfiladas as “milícias populares” conformadas por qualquer um que queira participar com treinamento aos fins de semana nos seus próprios Barrios. Em seu discurso Chávez avisou que a burguesia não poderia mais tentar um golpe como o de 11 de Abril de 2002, porque agora o povo está armado. E ele tem razão!

A marcha durou o dia inteiro, até a noite. Nos falantes músicas revolucionárias entrecortadas por intervenções contra o imperialismo, o capitalismo e em favor do socialismo. Chávez só chegaria para fazer seu discurso por volta das 17h.

Conversei com muitos dos milicianos que estavam aí. Uma dona de casa chamada Carmen, que aguardava o discurso do presidente apoiada em seu fuzil, me disse que uma das coisas que ela pensou que jamais aprenderia na vida seria como desmontar, limpar e montar uma arma. E agora ela inclusive sabe atirar. E que não hesitará em fazê-lo se os escuálidos tentarem de novo atentar contra a vontade soberana do povo.

Isso representa uma profunda consciência do povo venezuelano de que as classes dominantes sempre usam discursos pacifistas e anti-violência para promover o desarmamento do povo justamente para poder explorar o povo sem que este possa resistir. Enquanto isso as classes dominantes se armam até os dentes através do aparato de Estado, com arsenais de guerra e armamento policial. E sempre que lhes convém não hesitam em usar toda a violência contra o povo, além de esquecerem-se de todo o discurso pacifista quando decidem fazer as guerras, que nada mais são do que negócios para eles.

A única forma de conquistar a paz e acabar com a violência é tirando do controle de cada país e do mundo todo a classe capitalista, que mata bilhões de seres humanos com suas guerras, crises econômicas, desemprego, fome, miséria, drogas, repressão policial e todo tipo de atividade criminosa em nome do lucro. Para isso os trabalhadores devem se armar!

Confraternização entre trabalhadores e soldados

Já ontem, 19 de Abril de 2010, o “Bicentenário” (aniversário de 200 anos da independência) foi comemorado com muita festa por todo o país. Pela manhã houve um grande desfile que começou com grupos de dança popular de todo o país, depois seguiu como um desfile militar com representações de vários países e terminou com um desfile completo das forças armadas venezuelanas (exército, marinha, aeronáutica), batalhões regulares, carros blindados, tanques, aviões, helicópteros.

Em seu discurso Chávez explicou que a liberação dos povos da América Latina ainda não foi alcançada nesses 200 anos e que só poderá ser alcançada com o socialismo.

Esses desfiles militares são tradicionais no dia da independência, mas este ano ocorreu algo que não havia ocorrido nunca antes: Numa tarde ensolarada, centenas de milhares de pessoas vestidas de vermelho que assistiam ao desfile militar, quando este acabou, foram se confraternizar com os militares. Crianças, mulheres e homens com camisas e bonés do PSUV subiam em centenas de tanques de guerra e carros de combate tirando fotos, conversando com os militares e entoando palavras de ordem socialistas.

Essa confraternização entre o povo e o exército representa uma mudança de qualidade importante. Em geral os povos da América Latina não confiam muito nas forças armadas de seus próprios países, principalmente por conta das ditaduras militares que cobriram o continente no século 20. Para o povo venezuelano, além da ditadura militar de 1948 a 1958, está muito fresco na memória o Caracazo de 1989. Essa confraternização de ontem demonstra que o povo entende que agora controla as forças armadas, que essas são leais ao povo, são parte do povo.

As condições objetivas para o triunfo da revolução estão dadas. O que falta são as condições subjetivas: uma direção e um programa claros. Falta aprofundar a organização da classe – que avançou com a constituição do PSUV, mas que ainda não atingiu a maturidade necessária. Se Chávez ordena a toma das fábricas e terras pelo povo em armas junto ao exército, o que poderia fazer a burguesia? Fugiria! O povo poderia realizar a verdadeira democracia que é o controle de toda a produção e planificação da economia através dos conselhos de fábrica, conselhos comunais, comunas e avançar para a formação dos conselhos de deputados operários, camponeses e soldados.

Em seu discurso de 13 de Abril Chávez disse que continuam as conspirações do imperialismo para matá-lo. E alertou que se acaso tentarem um novo 11 de Abril o povo sabe o que fazer: deve radicalizar a revolução, tomar o poder, tomar todas as fábricas, todas as terras, varrer a burguesia do país e implantar o socialismo. A questão que fica é: Por que o povo deve esperar um novo golpe para fazer isso? Por que esperar que Chávez seja morto para fazer isso? Por que não fazer agora mesmo?

A luta de classes continua e mais cedo ou mais tarde uma das classes terá que perder essa batalha. Quanto mais durar essa situação absolutamente contraditória, maior é o risco da revolução ser derrotada pelo desânimo, cansaço e apatia.

Explicar isso tudo e aprofundar a organização da classe através do PSUV, dos sindicatos, dos conselhos, das milícias é a tarefa urgente na Venezuela. Para isso o jornal “Lucha de Clases” vai jogar um papel fundamental.

Por fim, quero dizer a todos que estão lendo esse relato que a melhor maneira de ajudar o povo venezuelano a cumprir sua tarefa histórica de emancipação e libertação é ajudarmos o povo brasileiro a avançar no mesmo sentido. No Brasil a situação está mais difícil para o movimento revolucionário em comparação com a Venezuela, mas se não perdemos a confiança na capacidade de luta da classe trabalhadora e da juventude, sabemos que nada poderá conter a roda da história, nem no Brasil e nem em nenhum país do mundo. As velhas formas de dominação já caducas buscam resistir à história lançando mão de todo o poder econômico, militar, midiático, tecnológico, mas o novo sempre vem. Como disse Che Guevara: “Eles podem matar uma, duas, três flores, mas jamais poderão deter a primavera”.

Abraços e saudações a todos! Até a volta.

Caio Dezorzi
Caracas, 20 de Abril de 2010.

Solidariedade com os sindicalistas assassinados em Aragua, Venezuela

Prezados companheiros,
Recebam nossa solidariedade.

Repúdio ao assassinato dos dirigentes sindicais da União Nacional dos Trabalhadores (UNT) Richard Gallardo, Luis Hernández e Carlos Requena!

Exigimos justiça e punição para os culpados!

Pela nacionalização sob controle operário de fábrica Alpina e de todas as grandes empresas de laticínios da Venezuela!

Nós, do Movimento das Fábricas Ocupadas do Brasil, recebemos a notícia de assassinato desses companheiros com indignação e revolta.

É evidente que se trata de um crime político a mando da patronal contra a liberdade e autonomia sindical, contra o direito de greve e contra a luta pelos empregos, salários e direitos dos trabalhadores venezuelanos.

Os companheiros foram emboscados enquanto organizavam a tomada e a ocupação da fábrica de laticínios Alpina e exigiam sua expropriação sob controle dos trabalhadores, como continuidade da luta em defesa dos empregos ameaçados, após os patrões anunciarem o fechamento da unidade de Cagua (Aragua).

Por isso, prestamos nossa solidariedade e exigimos justiça e punição aos culpados pelo assassinato de Richard Gallardo, Luis Hernández e Carlos Requena!

Podem contar com nosso apoio na luta pela nacionalização das fábricas, bancos e grandes empresas sob controle operário! Pela vitória do socialismo na Venezuela!

Serge Goulart
Movimento das Fábricas Ocupadas do Brasil
Esquerda Marxista

Trabalhadoras de Gotcha tomam sua fábrica

Entrevista da Frente Revolucionária de Trabalhadores em Empresas Ocupadas e em Co-gestão (FRETECO) com trabalhadoras da fábrica têxtil Gotcha. (http://www.controlobrero.org/).

FRETECO: Camaradas, o que as impulsionou a ocupar a fábrica?
Trabalhadoras de Gotcha: foi tomada na segunda-feira, 22 de setembro de 2008, como medida de ação definitiva, já que não é a primeira vez que tomamos a empresa como medida de pressão, frente as arremetidas do Sr Wilson Balaquera, patrão da empresa. Em 2006, nos vimos na necessidade de permanecer nas instalações da empresa durante quatro meses. Isso ocorreu porque, como se sabe, o problema da fábrica Flanelas Gotcha é que tem como norma a mudança de denominação (mudança de razão social - NT) a cada 6 ou até 3 meses, desde o ano de 1999 e, portanto, as trabalhadoras têm que mostrar juridicamente a fraude trabalhista ou a unidade econômica (isto é, que trabalham na mesma fábrica - NT).

FRETECO: O que o patrão violou para que vocês tomarem essa decisão?
Trabalhadoras de Gotcha: primeiramente, o fato da mudança de denominação servir com o fim de evasão de impostos e não pagamento de benefícios, tais como férias e vales-alimentação, prêmio por anos trabalhados... Em 2005, no momento da legalização de nosso sindicato, foram despedidas todas as trabalhadoras, o que gerou a ocupação em 2006. Em junho de 2006, tendo em vista os trâmites burocráticos para poder conseguir uma providência administrativa de um dos tantos nomes da empresa e posteriormente reivindicar nos tribunais trabalhistas os direitos retidos, tivemos que suspender a ocupação e chegar a um acordo com uma das empresas para retomar as atividades, o pagamento dos salários atrasados, a discussão para um contrato de trabalho e mais algum benefício. Acordos que a empresa não cumpriu em nenhum momento. Venceu o projeto de convenção coletiva e tivemos que introduzir um novo projeto em 2007, com o qual a empresa tampouco quis sentar para discutir. Esgotamos toda a via conciliatória, ao contrário do patrão que atacou os trabalhadores com demissões injustificadas, violando garantias trabalhistas por discussão de contrato de trabalho, por decreto presidencial, entre outras. O que nos obrigou a retomar as ações de luta revolucionárias, não pelas reivindicações e sim pelo controle total da empresa, já que não queremos seguir sendo enganados e explorados por um patrão sem consciência.

FRETECO: o que as trabalhadoras de Gotcha irão fazer?
Trabalhadoras de Gotcha: como já esgotamos todas as vias administrativas e conciliatórias possíveis, as trabalhadoras de Gotcha temos claro que as injustiças e a exploração das quais somos vítimas, não só as trabalhadoras de Gotcha, mas toda a classe operária mundial, sabemos que a única saída é a eliminação da propriedade privada dos meios de produção e como solução é nacionalização das empresas sob controle operário, como única saída para a construção do verdadeiro socialismo bolivariano.

FRETECO: De onde receberam apoio e o que pedem ao Estado?
Trabalhadoras de Gotcha: Temos que reconhecer a solidariedade da FRETECO, da Corrente Marxista Revolucionária (CMR), das empresas recuperadas e tomadas, como INAF, Transporte MDS, INVEVAL, Sindicato Venirauto, Seravian, Iberia, Giralda, Laboratórios Murfi... E fazemos um chamado de apoio aos demais sindicatos da UNT Aragua e UNT nacional.
As trabalhadoras de Gotcha solicitamos a expropriação (declaração de utilidade pública a serviço da nação do meio de produção) das empresas ocupadas INAF, MDS e Gotcha, as quais devem servir de exemplo e modelo ao resto da classe trabalhadora de Venezuela e do mundo, que tem claro o que quer, mas lamentavelmente não têm um modelo a seguir porque os reformistas e burocratas atuam para trancar e frear as lutas dos trabalhadores, como por exemplo, no caso da Sidor, onde o antigo ministro do Trabalho estava freando a luta.

Sim à expropriação de INAF, MDS, Gotcha sob controle operário!
Sim ao socialismo, não ao capitalismo!

Mais vídeos sobre os conflitos sociais na Bolívia

“La Derecha no Pasará”
É um vídeo-documentário que mostra as ocupações e saques feitos pelos bandos fascistas ao Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA), à ENTEL (empresa de telefonia nacionalizada pelo governo Evo Morales) e à TV Boliviana (canal público). Mostra também a resistência popular, principalmente do bairro Plan 3000 de Santa Cruz. O link é esse (dividido em 2 partes):

Parte 1:
http://br.youtube.com/watch?v=UYViOH2RIcc&feature=related


Massacre de camponeses em Pando (Bolívia)
Esse vídeo explica quem é Leopoldo Fernandes, prefeito do departamento de Pando (governador do estado de Pando), responsável por mandar reprimir uma manifestação pacífica de camponeses, que resultou em um massacre, com dezenas de mortos, feridos e desaparecidos, incluindo mulheres e crianças.
O vídeo denuncia o massacre, mostra a prisão do prefeito pelo Exército e a resistência armada de bandos fascistas que haviam tomado o aeroporto da capital Corija. Por fim, mostra a incapacidade da justiça burguesa em punir Leopoldo Fernandes por genocídio, como exigiam as organizações sociais e os familiares das vítimas do massacre.

Parte 01:

Declaração da Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia aos bolivianos que vivem no Brasil


A carta foi distribuída pelos militantes da Esquerda Marxista numa praça em São Paulo onde centenas de imigrantes bolivianos se encontram. Clique na imagem para ler.

Só os mineiros salvarão a revolução na Bolívia!

Por Serge Goulart


Nenhum acordo com os fascistas! A unidade e a mobilização independente dos operários e camponeses pode derrotar o fascismo e abrir caminho para o socialismo.


Os fascistas da “Meia-Lua” na Bolívia, valentes com as reuniões e o apoio do embaixador dos EUA, organizaram um levante tomando prédios públicos, destruindo repartições, sabotando gasodutos, tomando aeroportos, perseguindo, humilhando, golpeando e assassinando indígenas camponeses e trabalhadores. Em Pando organizaram um verdadeiro massacre com dezenas de mortos.

Este movimento fascista, organizado e articulado pelos governadores da região dita “Meia Lua” se baseia na pequena burguesia local manipulada e instigada por supostas defesas das riquezas da região que estariam sendo “sugadas” pela Bolívia pobre e indígena assim como na defesa da etnia “Camba” (descendentes de espanhóis e guaranis da região) contra qualquer mistura ou “invasão” dos “Collas” (descendentes dos Aymarás e Queshuas) do altiplano. Tem seu ponto mais avançado na União Juvenil Crucenha (de Santa Cruz), organização armada abertamente racista e violenta. E deve ser caracterizado como fascista, não por suas ações violentas e pela quantidade de ataques que organiza, mas fundamentalmente por seu objetivo de destruir as organizações operárias e camponesas. É isto a alma do fascismo, e por isso é inútil toda tentativa de acordo com eles. O MAS é uma organização pequeno-burguesa de tipo “parlamentar-democrática”. Já o fascismo não pode consolidar seu poder senão destruindo as organizações operárias e camponesas e o próprio “parlamento-democrático”. O fascismo surge exatamente porque a burguesia boliviana foi incapaz de controlar e reverter a revolução até agora por meios policiais e repressivos “normais”.

Seu objetivo central é derrubar o governo de Evo Morales, revogar todas as nacionalizações feitas, e em curso no país, e afogar em sangue a revolução boliviana. O que eles temem é que a revolução se desenvolva e venha a liquidar o regime da propriedade privada dos grandes meios de produção.

A responsabilidade maior de todos os socialistas é neste momento organizar e ajudar a constituição da unidade das forças operárias e camponesas para combater a ameaça fascista e derrotá-la através da mobilização. Sem comprometer-se com a política de Evo Morales a tarefa dos revolucionários é defender as nacionalizações, as conquistas e o aprofundamento da revolução boliviana, único meio de combater realmente a burguesia fascista a serviço do imperialismo. Mobilizações e atividades precisam ser organizadas em todos os países mostrando que o povo boliviano e sua revolução não estão sozinhos, mas que sua luta é a luta de todos os trabalhadores pelo fim de toda opressão e exploração.

A defesa do governo de Evo contra a ameaça fascista não se confunde, porém, e não pode ser confundida pelos marxistas, com a defesa das instituições do estado burguês em crise na Bolívia. Contra a ameaça fascista é preciso responder com os métodos da classe trabalhadora, com unidade, organização e mobilização enfrentando os fascistas onde tudo se decide: nas ruas. Os únicos métodos eficazes para derrotar o fascismo são os métodos da revolução proletária e a classe operária não pode cair na arapuca tradicional de stalinistas e reformistas de “defender a república” contra o fascismo. Como explicava Trotsky sobre a revolução espanhola: “A aliança política dos dirigentes operários com a burguesia se cobre com o pretexto da defesa da ‘república’. A experiência espanhola demonstra claramente em que consiste esta defesa. A palavra ‘republicano’ assim como a palavra ‘democracia’ revela o palavrório consciente que serve para dissimular as contradições de classe.” (Trotsky, “Defesa da república ou revolução proletária”). A única orientação revolucionária conseqüente é combater o fascismo lutando pela revolução proletária, o que significa neste momento a mobilização armada e a auto-organização das massas proletárias bolivianas.

A origem da crise atual

As insurreições de 2003 e 2005 desmantelaram o estado burguês na Bolívia. Nestas duas ocasiões os mineiros e a COB (central sindical) tiveram o poder ao alcance da mão, mas não concretizaram este movimento porque não havia na direção da insurreição um partido marxista, bolchevique. O resultado é que o corpo do estado burguês decapitado não foi enterrado e assim ainda teve a capacidade, ajudado por todo tipo de pequeno-burgueses, de lançar uma corda de salvação convocando eleições.

Era tal a desmoralização e a incapacidade da burguesia de apresentar-se como saída para a crise que o deputado do MAS, Evo Morales, se lança e conquista a presidência apoiado pelas amplas massas trabalhadoras do campo e da cidade. A COB que havia sido incapaz de tomar o poder depois de ter desmontado o estado burguês, agora aprofunda o erro e boicota a eleição em nome da independência de classe. Mas, sua consigna não foi seguida nem mesmo pelos mineiros que em sua ampla maioria votou Evo.

Evo se apresenta, no governo, como candidato a reconstruir o estado burguês e “fazer as instituições funcionarem”. Para este fim convoca uma Constituinte justamente no momento que o conjunto das organizações ligadas à COB, retomando a experiência de 1971, havia aprovado a convocatória de Assembléias Populares “para estabelecer o poder originário”. A Constituinte de Evo, as hesitações da COB, aliadas aos seus erros anteriores, esvazia as Assembléias Populares que acontecem apenas em alguns poucos lugares e sem força. Assim a crise que continua foi sendo transferida para dentro da Constituinte com uma agudização dos enfrentamentos entre a maioria do MAS, sob pressão das massas, e a oposição burguesa. Quando os meios parlamentares fracassaram surgiu com força a solução fascista pela mão dos governadores da “Meia Lua” apoiados e empurrados pela embaixada dos EUA.

Esta é uma diferença muito importante entre Evo e Chávez. Evo chega ao governo com o estado burguês desmantelado quando o único poder real no país havia estado nas mãos da COB e se empenha na reconstrução do estado capitalista. Se Evo vai conseguir é outra coisa.

Já Chávez chega ao governo de um estado burguês, em crise, mas “funcionando normalmente” e com suas ações provoca e amplia sem cessar a crise do Estado burguês na Venezuela até o ponto de fraturá-lo profundamente. Por isso, Chávez é um elemento de avanço da revolução na Venezuela, enquanto Evo é um elemento permanente de obstáculo à revolução na Bolívia, até este momento.

Mas, isso pode mudar. Foi sobre pressão das massas que Evo anunciou as primeiras nacionalizações, e como foi inviabilizado um acordo com a oposição burguesa no parlamento, não lhe restará muito espaço para manobrar. Sua única salvação é apoiar-se nas massas proletárias da Bolívia e avançar.

Os fascistas só chegaram até aqui por responsabilidade central de Evo Morales e sua política pequeno-burguesa de divisão da nação propondo transformar a república boliviana em uma federação de etnias. Evo pretende estabelecer uma espécie de descentralização do país, chegando ao cúmulo de propor a instituição de “justiças regionais baseadas nas tradições indígenas” e outros tantos absurdos, que só podem provocar o esfacelamento e destruição da república boliviana.

Uma política pequeno-burguesa não leva ao socialismo

A política fundamental de Evo é o desenvolvimento do “capitalismo andino” teorizado e divulgado por seu vice-presidente, o ex-guerrilheiro Álvaro Linera, convertido à socialdemocracia, ou seja, ao capitalismo em sua fase imperialista.

E não se pode esquecer que Evo Morales, que era sindicalista, foi expulso da COB, em 2004, por trair a luta pela nacionalização do petróleo e do gás. Como deputado nacional, Evo apoiou o acordo de exportação de gás para a Argentina, através da Repsol e Pluspetrol, feito pelo governo boliviano, ao preço “solidário” de US$ 0,98 o milhar de pés cúbicos de gás, enquanto o Brasil estava pagando US$ 2,30.

As nacionalizações realizadas durante o governo Evo Morales foram fruto direto das lutas dos mineiros e dos trabalhadores através da FSTMB (Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia) e da COB. Só tomou medidas sob intensa pressão e quando não havia outra maneira de manter-se no governo. Odiado pela burguesia porque seu governo nasce como subproduto das insurreições de 2003 e 2005 que destroçaram o estado burguês na Bolívia, Evo não tem a menor possibilidade de governar sem o apoio do movimento operário e camponês e suas organizações. Mas, sua política permanente é de reconstrução do estado burguês e de recomposição das instituições reacionárias do capital.

Como expressão da pequena burguesia desesperada em meio a uma situação revolucionária, Evo Morales utiliza a legítima vontade dos camponeses de sair da miséria tenebrosa a que foram submetidos sempre pelas classes dominantes para tentar lançá-los contra o movimento da classe operária e esgrima uma “política moderna” de divisão das classes trabalhadoras da Bolívia através da política de divisão étnica do povo trabalhador. Seu programa político é uma árvore de natal de ONGs, de propostas de políticas compensatórias do Banco Mundial, das propostas “antiglobalização” e de defesa do capital.

A nomeação do chefe das cooperativas reacionárias de mineiros, manipuladas e de fato controladas pelas multinacionais, como Ministro das Minas provocou e permitiu enfrentamentos sangrentos daqueles contra os mineiros assalariados que defendem a estatização e o controle operário das minas. O ataque dos cooperados contra Huanuni (a maior mina estatal), em 2006, para tentar tomá-la na base da bala e da dinamite causou dezenas de mortos e feridos. Durante semanas o governo a tudo assistia passivamente. Evo só agiu quando o massacre se intensificou, a resistência também ameaçando se estender em manifestações em todo o país e se tornou um escândalo público internacional.

Acontece que em situações de guerra, catástrofe econômica ou revolução, mesmo os partidos pequeno-burgueses podem ser levados muito mais longe do que pretendiam e serem obrigados a uma ruptura, que não desejam, com a burguesia. Assim, Evo, pressionado, foi muito mais longe do que pretendia com as nacionalizações de gás e petróleo e isto realimentou o movimento da classe trabalhadora que se sente ainda mais forte. Mas, continuou insistindo em sua política de defesa das instituições burguesas e de divisão étnica da Bolívia. E agora está provando de seu próprio veneno.

Xenófobos, racistas e fascistas

O movimento da burguesia de Santa Cruz, Pando, Tarija e Beni (chamados estados [departamentos] da “meia-lua”, ou do “oriente”) tem como objetivo esmagar a revolução. Eles estiveram no governo por décadas e jamais falaram em autonomia e separação da “Meia-Lua”. O que agora organizam de fato é uma tentativa de golpe de estado, utilizando e manipulando setores da pequena burguesia com políticas racistas e xenófobas. Instigam o ódio contra os “collas” (indígenas Aymarás e Quechuas do altiplano) e se reivindicam “cambas” (mestiços dos brancos espanhóis com os índios Guaranis).

O Movimento Nação Camba, baseado em Santa Cruz de La Sierra, explica sua posição: "Em geral, se conhece a Bolívia como um país fundamentalmente andino, encerrado em suas montanhas, uma espécie de Tibet Sul-americano constituído majoritariamente pelas etnias aymará-queschua, atrasado e miserável, onde prevalece a cultura do conflito, comunalista, pré-republicana, não-liberal, sindicalista, conservadora, e cujo centro burocrático (La Paz) pratica um execrável centralismo colonial de Estado que explora suas colônias internas, se apropria de nossos excedentes econômicos e nos impõe a cultura do subdesenvolvimento, sua cultura.”... “Esta ‘outra Nação’ constitui ‘a outra versão’ da Bolívia e cujo Movimento aspira conquistar a autonomia radical desta nação oprimida." (http://www.nacioncamba.net/index2.htm).


A política de federação de etnias e de descentralização entra como uma luva para alimentar este tipo de lixo político.

A burguesia é republicana enquanto a república defenda a propriedade privada

Apesar de ter sido reafirmado por 67% dos votos no referendo de 10 de Agosto, Evo faz o contrário do que lhe pedia o povo, na praça, no dia da vitória, aos gritos de “Mano Dura! Mano dura!”. Ele insiste num impossível dialogo nacional com os fascistas. A oposição burguesa entende sua fraqueza política, sua hesitação e paralisia e responde cercando o presidente em aeroportos, fazendo-o retirar-se de cidades e até mesmo tendo que por algumas horas refugiar-se numa base aérea brasileira. Os dirigentes da União Juvenil Crucenha recorrem o país tentando organizar e armando bandos para derrubar o governo. Como ele não reage, nem mesmo perseguido fisicamente, os grupos fascistas, encorajados pelo governo EUA, organizam o levante fascista.

Evo já não sabe o que fazer. Apela à ordem e legalidade. Tenta dar ordens ao exército para retomar o controle, mas o exército se faz de desentendido. E nos locais onde havia tropas, os grupos fascistas destroem os prédios públicos e empresas estatais assistidos passivamente pelos soldados. É isto que leva Chávez a declarar que o exército boliviano estava em greve contra Evo.
É neste momento de crise aguda, crucial, que o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, em 9/9/2008, declara:

"Estamos analisando a forma como o governo boliviano poderá garantir a integridade da rede de gasodutos" e acrescentou que o governo brasileiro está disposto a "abrir os contatos diretos com os governadores do Oriente, se necessário." (Washington Post, 9/9/2008). Ou seja, encorajando e “reconhecendo” a autonomia e separação de fato destes estados da Bolívia.

A burguesia de todo o continente esfrega as mãos e festeja a queda iminente do governo de Evo. A sabotagem e explosão de gasodutos, o lockout dos setores patronais divisionistas, a ocupação de edifícios e empresas públicas, tudo foi saudado pelos mesmos que esbravejam contra qualquer manifestação operária. Tivemos neste momento uma prova absoluta que quando os interesses dos poderosos são tocados ou ameaçados eles não recuam frente a nenhuma consideração “democrática”.

As leis, as ditas instituições democráticas, não têm a menor importância para a burguesia quando se trata de salvar seus interesses fundamentais. Para eles, constituição, leis, etc., é somente papel. As leis servem para enredar os explorados, mas nunca para conter o instinto de sobrevivência os exploradores.

O jornal “O Estado de SP” declara cinicamente em editorial: “Nos últimos dois anos, na Bolívia não há lei a respeitar nem instituições que funcionem regularmente. O país está à mercê do arbítrio de um presidente que insiste em instituir uma forma de governo sui generis, baseado numa ideologia nacional-indigenista anacrônica e irresponsável, e um regime autoritário, à semelhança do que seu mentor Hugo Chávez vem praticando na Venezuela. A oposição, por sua vez, não tendo instituições às quais apelar, está compreensivelmente reagindo nos termos em que Evo Morales colocou a disputa: com atos de arbítrio, a mobilização dos movimentos cívicos e políticas de fatos consumados.” (OESP, 10/9/2008, grifos nossos).

Esta é a burguesia “democrática” brasileira, que para defender seus interesses não hesita em rasgar as leis, desconhecer suas próprias instituições e agir de armas na mão.

A reação das massas começa a virar o jogo

Ameaçado diretamente Evo, finalmente, expulsa o conspirador Philip Goldberg da embaixada dos EUA na Bolívia. Chávez faz o mesmo na Venezuela em solidariedade. O embaixador dos EUA, Philip Goldberg, girava pelo país conspirando. Em 10/9/2008, reuniu-se com a prefeita de Chuquisaca, Savina Cuellar, em Sucre, e com a organização ultra-racista Comitê Interinstitucional, que em 24 de Maio humilhou vários camponeses desnudando-os e fazendo-os pedir perdão de joelhos na praça principal da cidade. Dias antes este embaixador dos EUA se reuniu em Santa Cruz com o prefeito Rubén Costas, o chefe público da conspiração reacionária e fascista. Assim, teve toda razão Evo Morales em expulsar o chefe da conspiração, o embaixador Philip Goldberg.

As mobilizações de camponeses e de trabalhadores urbanos começam a se espalhar contra o golpe. Milhares de camponeses e trabalhadores marcham em direção a Santa Cruz e bloqueiam as entradas e saídas da cidade provocando desabastecimento e pondo em pânico os “valentes” bandidos pequeno-burgueses organizados pelos governadores. As organizações populares começam a se articular em frentes únicas para enfrentar os fascistas e outros milhares de camponeses decidem marchar até o centro de Santa Cruz. Nem mesmo Evo pode controlar a radicalização deste movimento. É o látego da contra-revolução fazendo avançar a revolução.

O medo começa a tomar conta dos fascistas e o governador de Tarija “responde” ao apelo ao diálogo aplainando o caminho para um grande pacto entre Evo e os governadores de oposição. É preciso a todo custo parar o movimento das massas que não se deterá em recuperar os edifícios públicos, mas vai castigar os culpados e fazer avançar com “Mano Dura” a revolução.

Entra em ação o governo Lula, agora para “buscar o diálogo entre as partes e garantir as instituições da democracia”, ou seja, o estado burguês na Bolívia. E como tentou fazer com a Venezuela no passado tratou de montar a nova versão dos “Amigos da Bolívia” reunindo a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) para fazer pesar sobre as partes (Evo e governadores) a responsabilidade de salvar as instituições combalidas. Os irresponsáveis governadores despertaram um monstro que não vão conseguir derrotar e Evo não está fazendo o suficiente para levar o monstro de volta para a caverna.

A UNASUL unanimemente respalda o “governo legal” de Evo e se pronuncia contra qualquer golpe civil contra ele e em defesa das “instituições democráticas”.

Concessões aos fascistas ameaçam a revolução

Mas, Evo precisa do apoio do movimento operário e vai buscar o acordo da COB para um pacto de defesa da democracia. Assina um “Pacto de Unidade” com a COB cujo centro está nos pontos 2 e 3 do documento:

2. “Defender a democracia que custou luto e sangue aos trabalhadores e ao povo em geral, pois esta conquista está sendo ameaçada por terroristas e fascistas que atentam contra a institucionalidade e a vida dos bolivianos.

3. Respaldamos e defendemos este processo revolucionário de mudanças em busca da equidade, igualdade e justiça social que é liderado por nosso irmão, presidente Evo Morales Ayma, para construir uma pátria nova com a aprovação de uma nova Constituição Política do Estado”.

Assim, alguns dos principais dirigentes da COB, sem consultar nenhum sindicato, assinam a defesa da “democracia” e da “institucionalidade”, reconhecem a “liderança” de Evo Morales e aprovam a nova Constituição que ao fim e ao cabo destroçará a Bolívia como nação e vai balcanizá-la para impedir a revolução. O Estado burguês foi destruído nas insurreições de 2003 e 2005. Todo esforço de Evo é no sentido de reconstruí-lo, mas é incapaz de fazer isso se não tiver antes a capitulação dos dirigentes do movimento operário.

Assinado o pacto com a COB, Evo pode então capitular abertamente e assinar um documento de pacto com os governadores. Neste documento Evo aceita todas as exigências dos governadores fascistas e ainda se compromete a desmontar as mobilizações que cercavam Santa Cruz e ameaçavam os fascistas. A seguir os principais pontos do documento:

“Depois de sessões sucessivas de trabalho iniciadas no dia 12 de Setembro, Sexta-Feira, destinadas a desenhar um processo de diálogo, lembram-se as seguintes bases para atingir um ‘Grande Acordo Nacional’:
- O Governo Nacional reconhece, conforme as leis vigentes, o direito dos departamentos a receber o Imposto Direto aos Hidrocarbonetos (IDH);
- O Governo Nacional expressa seu respeito ao direito à autonomia departamental de Pando, Beni, Tarija e Santa Cruz;
- O processo de diálogo contará com o acompanhamento de facilitadores e testemunhas. Lembra-se convidar como tais a Unasul, Igreja Católica, União Européia, OEA e ONU;
- Restituição imediata dos escritórios públicos e instalações petroleiras ocupadas à raiz do conflito por pessoas alheias às mesmas, a fim de restabelecer os serviços públicos;
- Iniciar conversas sobre a nova administração territorial das instituições, considerando a implementação constitucional da autonomia departamental;
- Lembra-se também o levantamento de todos os bloqueios de caminhos no território nacional;
- As partes deverão iniciar o processo de pacificação do país, restabelecendo plenamente a convivência pacífica entre os bolivianos e fazendo os esforços necessários para frear de maneira imediata a violência em todo o território nacional;
- Esclarecer os fatos ocorridos no departamento de Pando, através de organismos nacionais e internacionais imparciais e uma comissão congressual que se deslocará de imediato ao local dos fatos;
- Em caso que os mencionados organismos estabeleçam indícios de responsabilidade, garante-se o direito ao devido processo. Garante-se também a integridade pessoal de autoridades, dirigentes cívicos e sociais de Pando;
- Não impulsionar ações judiciais que tenham conotação política contra dirigentes cívicos, sociais e autoridades dos departamentos mobilizados que tenham atuado pelas reivindicações departamentais e sociais que precederam a este Acordo; como também paralisar a campanha midiática de desprestigio de autoridades, atores cívicos e sociais.”

A classe operária reage para salvar a revolução e a COB

Mas, isto provoca uma reação imediata dos mineiros assalariados da FSTMB. Assembléias são realizadas e os mineiros rejeitam o acordo assinado pela COB condenando seus dirigentes. A FSTMB solta uma declaração condenando a assinatura do pacto e se insurge contra ele.

Guido Mitma, secretário executivo da combativa Federação dos Mineiros (FSTMB), declara que a ação da direção da COB foi “unilateral e inorgânica” e que “compromete a independência política dos trabalhadores e seu ideário socialista”.

Nas assembléias de Huanuni, os mineiros e a FSTMB proclamaram:

“As minorias esmagadas em 2003 e 2005 devem definitivamente ser eliminadas porque são as financiadoras deste estado de anarquia e ilegalidade montado sobre o grande show das autonomias.

Nossa luta deve ser dirigida a arrebatar a fonte do poder econômico desta minoria oligárquica e latifundiária. Isso significa lutar pelo cumprimento das Agendas de 2003 e 2005 nacionalizando as empresas multinacionais e recuperando as empresas privatizadas. Assim ferimos de morte os ‘gamonales’ (oligarcas), freamos o saque, geramos fontes de trabalho e superamos nos fatos a pobreza ancestral a que nos há submetido o capitalismo e o neoliberalismo.

O governo já não pode contornar irresponsavelmente este caminho. Basta de conciliar com os conspiradores e sabotadores do verdadeiro processo de mudanças. A mudança não deve ser frase oca, mas mudança estrutural para recuperar nossos recursos naturais e explorá-los através do Estado sob controle social. Nacionalizar e industrializar nossas riquezas deve ser o objetivo imediato. A experiência demonstrou que só o povo através do Estado pode fazê-lo.”

Esta sim é uma resposta revolucionária às ações dos fascistas e reacionários. Honra e glória aos mineiros assalariados da Bolívia organizados na FSTMB! Eles constituíram sua Federação em 1944, criaram a COB e fizeram a revolução de 1952 - a primeira revolução proletária das Américas. Levantaram o povo oprimido e derrubaram vários governos assassinos e entreguistas como Sanches de Losada (Goni) e outros. Agora eles apontam o caminho para uma saída positiva da espantosa crise em que se encontra a Bolívia.

Sua reação foi tão forte e tão sentida que em seguida a direção da COB teve que sair a público condenando o diálogo de Evo com os governadores e rejeitando qualquer acordo com os fascistas. A COB retoma assim sua independência política. Agora deve dar conseqüência a isto mobilizando as massas para liquidar o fascismo.

Situação e perspectivas

A vida vai fazer Evo escolher definitivamente seu caminho. Mas de uma coisa é certa: Sem o movimento operário Evo não sobreviverá aos ataques dos fascistas a serviço do imperialismo. E para ficar com as massas vai ter que romper esta tentativa ignóbil de pacto nacional com os golpistas e romper com o capital, entrando na via do socialismo. Se escolher outro caminho, junto com os oligarcas e contra as massas, Evo não sobreviverá e o caminho será muito mais doloroso para as massas e para toda Bolívia.

Os golpistas não recuarão e cada vez vão exigir mais. Vão exigir o que Evo não pode dar e ele será levado à parede.

Todas as forças estão tensionadas ao máximo. Em 22/9/2008, as organizações populares bolivianas decidiram reforçar os bloqueios e o cerco a Santa Cruz de la Sierra com cerca de 50 mil camponeses e trabalhadores demonstrando que sabem que só sua mobilização independente pode conduzir à vitória. Enquanto isso o governo brasileiro abriga em hotéis do Acre cerca de 100 fascistas assassinos de camponeses que se refugiaram no Brasil escapando do castigo pelo massacre cometido em Pando. E Bachelet, do Chile, convoca nova reunião da Unasul, desta vez em Nova York (!), para ampliar a pressão sobre Evo.

As mobilizações internacionais em defesa da revolução boliviana mal começaram. E devem se estender o mais amplamente possível a exemplo da que foi realizada em São Paulo em 18/9/08, com cerca de 300 presentes.

Na Bolívia é preciso ajudar a organizar e mobilizar as massas proletárias sob a direção dos mineiros, ajudando-os a se constituir em partido político e se dotar de uma direção marxista bolchevique. Esta tarefa tem que ser realizada no meio da atual tempestade lutando para constituir as organizações de unidade e de combate das massas, retomando o fio de continuidade das Assembléias Populares de 1971, esmagando a reação fascista com os métodos do proletariado e preparando a tomada do poder pela classe trabalhadora. Não há outra saída para os trabalhadores do campo e da cidade deste extraordinário país que é a Bolívia a não ser o caminho do socialismo.

Bolívia: ante a fúria fascista, a resposta é a ira popular em legítima defesa

Publicamos aqui a declaração de todas as organizações populares e operárias da cidade de Santa Cruz, que se organizam para combater os fascistas. Este é o caminho! E têm todo apoio da Campanha Internacional "Tirem as Mãos da Venezuela"!

O resultado nas urnas assim como uma vez mais a maravilhosa resistência do Plan 3.000 de Santa Cruz às hordas fascistas, e a radicalidade expressa nas resoluções do Comitê Nacional pela Mudança (CONALCAM), demonstram que as arremetidas e a ousadia da direita e a própria direita e a burguesia nacional somente puderam sobreviver, reviver e representar um estorvo com o apoio do imperialismo. O referendo revogatório e dois anos de experiência, entre sabotagem política e econômica em todos os setores produtivos, demonstram que os latifundiários e empresários bolivianos e o imperialismo são profundamente minoritários na sociedade.

Saudamos com extremo apoio e como um completo acerto, o Decreto Supremo que, finalmente, convoca o referendo constitucional. O governo começa a mover-se de maneira mais firme sob a pressão de sua base social, da classe trabalhadora e do campesinato mobilizado, como demonstra a convicção manifestada pelo presidente Evo Morales: que a partir de hoje o verdadeiro observador de qualquer diálogo é o povo.

Seremos o voto definidor sobre o verdadeiro tema em disputa: a posse da terra. Reduzir a 5.000 ou 10.000 hectares a superfície máxima concedida ao latifúndio, é desferir um duro golpe à estrutura agrária – financiadora do capitalismo boliviano e à oposição alocada no leste, com a consigna “mais terra para repartir, menos poder para a oligarquia”. A desobediência civil e as medidas de fato, pela oposição e os cívicos do leste, é a defesa da atual estrutura de posse e exploração da terra. A nova CPE afeta interesses muito fortes, os interesses dos criadores de gado, dos barões da soja e de seus amos e sócios imperialistas. Por tudo isso a resistência destes é com toda clareza violenta, defenderão com todos os meios sua visão patrimonial sobre a terra e em conseqüência do Estado.

O referendo revogatório de 10 de Agosto foi a enésima manifestação de força e grande combatividade das massas bolivianas. Mostrou que os trabalhadores e camponeses da Bolívia não estão dispostos a entregar o que ganharam com a sua luta desde a Guerra da Água, muito pelo contrário, seguem alimentando grandes expectativas de mudança. Desde a carta das Nações Unidas até os códigos e leis do país, é reconhecido como um direito legal e legítimo ante qualquer ataque ou abuso contra pessoas, instituições ou países, o direito à legítima defesa, quando são violados seus direitos elementares, recomendando-se sempre que em tal defesa se respeite o principio da “Proporcionalidade” (Exemplo: Um soco terá como resposta proporcional outro soco).

O que está acontecendo na Bolívia, especialmente em Santa Cruz e em outros departamentos, como Tarija, Beni e Pando é de fato uma afronta não só ao país, como ao mundo inteiro, que vê com assombro as imagens de grupos de delinqüentes fascistas pagos, que obedecendo a consignas dos governadores e comitês cívicos opositores ao Presidente Evo Morales, agridem mulheres, idosos e massacram qualquer um que atravesse seu caminho; e o mais grave de tudo isso, é a impunidade com que atuam, nesta terra, que segundo os fascistas, é deles e de ninguém mais.

A polícia, como o organismo encarregado de manter a ordem e, sobretudo resguardar a vida dos cidadãos, foi rebaixada e as agressões seguem acontecendo. Até quando? Não sabemos, mas quando observamos toda esta variedade de atos criminais, o que estamos vivendo é um ultraje a dignidade humana e não é que seja apenas contra mulheres usando pollera (roupa tradicional), seja quem for é um ato de indignidade humana pela qual, como bolivianos, temos que sentir vergonha.

Não é suficiente denunciar os fatos em tom de lamento cúmplice, isto tem de ter limite, o povo já não suporta mais. Ao povo só resta responder com a ira popular em nome de SUA LEGÍTIMA DEFESA! Diremos uma vez mais, nem tudo se acerta com os votos, pois estes não bastam para conseguir a paz.

Portanto resolvemos:

- Denunciar que as máfias empresariais dos Comitês Cívicos e departamentais, que se apropriaram de grandes extensões de terra e recursos naturais da Bolívia, preferem destruir o Estado boliviano a perder seus privilégios econômicos.

- Manifestamos nosso repúdio absoluto às ações fascistas Cívico-departamentais, com saques e destruição de nossas Instituições Públicas, executados por grupos financiados pela direita.

- Pedimos à classe trabalhadora, camponeses, agremiações, associações comunitárias e à população organizada, Declarar Mobilização Nacional em defesa da unidade Boliviana e defesa de nossos irmãos bolivianos, que sofrem agressões e massacres no leste boliviano, por parte dos Comitês Cívicos e dos governadores.

- Que o povo boliviano se expresse nas ruas sobre o perigo de um golpe de estado, preparado por empresas nacionais e estrangeiras junto a militares traidores da pátria, que querem, mais uma vez, dar de presente nossas empresas e recursos naturais, para endividar o Estado boliviano.

- Que as Organizações Sociais da Bolívia sejam os atores diretos, por qualquer meio e recursos necessários, da solução dos conflitos do país. (Que não sejam os confrontos de pequenos grupos que solucionem o processo de mudança).

Santa Cruz de La Sierra, 13 de Setembro de 2008

Assinam: Central Obrera Departamental de Santa Cruz; Asociación de Juntas Vecinales de la Ciudad Santa Cruz; Asociaciones Gremiales del Mercado Abasto de la Ciudad de Santa Cruz; Asociaciones Gremiales del Mercado La Ramada de la Ciudad de Santa Cruz; Asociaciones Gremiales del Mercado Mutualista de la Ciudad de Santa Cruz; Mercado del Plan Tres Mil (Plan 3000) de la Ciudad de Santa Cruz; Organización Marcelo Quiroga Santa Cruz; Organización Andrés Ibáñez (Los Igualitarios); Organización Cañoto; Comité Cívico Popular del Departamento de Santa Cruz; Organización Ignacio Warnes; Organización Avanzada Che Guevara; Organización Antonio José de Sucre; Unión Juvenil Popular del Departamento de Santa Cruz; El Movimiento Universitario Social (MUS) de la U.A.G.R.M.; Trabajadores Sociales del Departamento de Santa Cruz.

Vídeos sobre a situação na Venezuela e Bolívia

1 - Pronunciamento do presidente Hugo Chávez para a manifestação em apoio ao governo e contra a tentativa de golpe: http://www.manosfueradevenezuela.org/index.php?option=com_content&task=view&id=513&Itemid=1


2- Trabalhadores e soldados venezuelanos se confraternizam contra plano golpista

http://www.youtube.com/watch?v=nQl4PVL1p5c


3 - Manifestações fascistas em Santa Cruz (Bolívia): http://bolivia.indymedia.org/node/16798/play

Venezuela: derrotar a nova conspiração golpista contra a revolução!

Por Yonie Moreno, Corrente Marxista Revolucionária (CMR) da Venezuela

Quarta-feira, 17 de setembro de 2008


À conciliação oferecida pelos reformistas, a burguesia responde preparando outro golpe


Nos últimos dias, foi descoberto um novo complô por parte de um grupo de militares reformados e da ativa na Venezuela, segundo revelou em seu programa de televisão "La hojilla" da quinta-feira passada, o candidato a governador de Carabobo pelo PSUV, Mario Silva, em várias gravações a mando dos militares reformados. Hora depois eram detidos vários deles. Segundo relatava Aporrea (www.aporrea.org):


“No vídeo se escutam conversas telefônicas entre o General de Divisão do Exército Wilfredo Barroso Herrea; o Vicealmirante Millán Millán e o General de Brigada da Aviação Eduardo Báez Torrealba.


Os envolvidos falam de tomar o Palácio de Miraflores e assinalam como objetivo principal, dirigir todos os esforços até onde esteja “este senhor”, referindo-se ao presidente Hugo Chávez. “Se está em Miraflores até lá faremos o esforço”, se escuta nas conversações sustentadas pelos organizadores do golpe.


Ouve-se também: “vamos tomar o Palácio de Miraflores, vamos tomar as emissoras de televisão. O objetivo tem que ser um só (...) esse esforço de unidade tem que ser até o Palácio de Miraflores, porque é a unidade de combate”.


Entre os planos destes militares está garantir o controle do Comando da Armada, de acordo com as conversações sustentadas por eles no vídeo. Na conversa, eles dividem a operação em três zonas, a do oriente, ocidente e central.


Propõem fazer “uma possível operação” na chegada do presidente Chávez de alguma viagem. Uma das operações poderia ser em vôo, capturá-lo com aviões no ar (...) ou seja, haveríamos de armá-lo bem”, indicam.


Assinalam nas conversas que contam com comandantes, coronéis e pilotos - um com mil horas de vôo em F-16 - dispostos a seguir instruções.


“Assim o mais importante são os pilotos. Há um piloto que tem mil horas de vôo em F-16 e outro é instrutor, que são os que vão decolar os aviões. Esse comandante, que é um instrutor, tem outros muchachitos abaixo, uns capitães e uns maiores que deram instruções que também estão dispostos a seguir-lo, e esse é o homem de segurança dentro da Base Libertador que está conosco”, continua a conversa.


“Ele me disse: eu ponho os pilotos e os coloco em um avião. Ele é o comandante, a ele não vão questionar, nem nada. É o comandante da polícia ali (...)”, se ouve também na gravação (http://www.aporrea.org/actualidad/n120419.html).


Evidentemente, este é um complô em grande escala em que estão envolvidos não somente militares reformados e sim também da ativa. Vários dos participantes nesta conspiração já foram detidos. Na tarde de quinta houve concentração das bases revolucionárias em Miraflores e ocorreram mobilizações de massa em todo o país, em resposta a esses planos.


Este novo complô coincide no tempo com a nova ofensiva do imperialismo e a oligarquia contra a revolução boliviana em uma tentativa de derrubar o governo de Evo Morales e que resultou de imediato, em oito mortes e dezenas de feridos pelas mãos de grupos fascistas e paramilitares organizados pela burguesia e o imperialismo.


Em resposta ao papel instigador do governo dos EUA na tentativa de golpe na Bolívia, o governo de Evo Morales expulsou o embaixador dos Estados Unidos.


Horas mais tarde o governo do presidente Chávez, em solidariedade com a Bolívia, expulsava o embaixador norte-americano. Também o presidente Chávez declarava: “Sem ânimo de ingerência em assuntos internos da Bolívia, faço um chamado aos militares da Bolívia. Se derrubam Evo, se matam Evo, acreditem que me estariam dando luz verde para apoiar qualquer movimento armado em Bolívia”. Em um discurso transmitido em cadeia de rádio e televisão, Chávez indicou que “se a oligarquia e os ‘mini-ianques’ dirigidos, financiados, armados pelo império, derrubam algum governo nosso, teríamos luz verde para iniciar operações de qualquer tipo”.


Fracasso da política de conciliação com a burguesia impulsionada pelos reformistas


Desde o começo do governo nacional, sob a pressão dos setores reformistas e stalinistas dentro do movimento bolivariano, foram feitos chamados à oposição e à burguesia para dialogar. Como em outras ocasiões, isso não tem servido para nada – nem no terreno do investimento produtivo, nem no político – e os reacionários se dedicam a conspirar com redobrada força. Como após o 11 de abril de 2002, os chamados ao diálogo foram interpretados pela oposição como sinais de debilidade e prepararam o paro petroleiro. A debilidade convida à agressão. O mesmo ocorreu em 2004. Os chamados ao diálogo após a derrota da oposição do paro petroleiro conduziu a outra acometida: o referendo revogatório. De novo a mobilização do povo, e não aos chamados à conciliação, foi o que salvou a revolução.


Quem são os culpados desta intentona golpista? José Vicente Rangel em seu programa de televisão assinalava: “Isto está estimulado por setores da oposição que não têm nenhuma fé no sistema democrático, já demonstraram reiteradamente, estamos em um quadro que é delicado e que tem que ser levado em consideração. É por isso que em meu programa de televisão, desde mais ou menos 4 semanas, venho denunciando o que se está planejando e também na coluna que tenho no diário "Últimas Notícias”. E por acaso há setores da oposição que tenham fé no sistema democrático? A oposição, como demonstra 10 anos de revolução, assim como o imperialismo, vão recorrer a todo tipo de métodos legais e ilegais para tirar Chávez e derrotar a revolução. Não há dois setores da burguesia, um democrático patriota e outro golpista. A oligarquia venezuelana em sua imensa maioria é contra-revolucionária. A burguesia aceita o parlamentarismo enquanto a luta de classes não ameace a propriedade privada. Se os capitalistas vêem em perigo seu domínio, se esquecem da "democracia". A experiência da revolução chilena em 1973, que completa 35 anos, é eloqüente. Também a situação atual na Bolívia, onde pese a legitimação democrática obtida por Evo Morales no último referendo revogatório, a burguesia e o imperialismo despreza a vontade das massas quando seus interesses estão em perigo. Chegado o momento decisivo para defender seus privilégios, a oposição e a burguesia abandonam o traje democrático, demasiado estreito para quebrar a cabeça dos trabalhadores e pobres e esmagar a revolução.


A impunidade anima a reação


A lei de anistia de 31 de dezembro de 2007 está sendo utilizada pelos reacionários para preparar uma nova conspiração. Sob o conselho dos reformistas, oferecemos a mão e, uma vez mais, querem aproveitar para cortar nosso braço.


Enquanto os reacionários que participaram no golpe de 2002 puderem andar livremente pelas ruas de Caracas haverá conspirações e novas tentativas de golpe de estado: a oligarquia não se dará por vencida. Ao mesmo tempo, enquanto mantiverem o poder econômico, terão os meios e recursos para sabotar a revolução e se organizar. A medida fundamental contra os reacionários é cortar-lhes o braço econômico de seu apoio. As nacionalizações vão ao caminho adequado sempre que forem na via da nacionalização dos meios de produção para planificar a economia. "Não se pode planificar o que não se controla e não se pode controlar o que não se possui", assinala Alan Woods em seu livro "Reformismo ou Revolução".


As bases revolucionárias não podemos confiar na fiscalização e no aparato judicial que demonstra ser completamente incapaz de atuar contra os conspiradores. É necessário que a democracia participativa chegue também à justiça. Sobre a base dos conselhos comunais e conselhos de fábrica desde a base trabalhadora da revolução, é necessário que o próprio povo julgue os golpistas através de tribunais populares.


Há que revogar as leis de anistia de dezembro de 2007 e processar todos os culpados do golpe de 2002 e do paro petroleiro. Se estes conspiradores vencessem, alguém acredita que os golpistas iam anistiar o povo revolucionário, os ativistas do PSUV, os sindicalistas, os camponeses revolucionários? Sabemos qual é o caminho, o de Chile ou Argentina e de muitas outras revoluções afogadas em sangue pela burguesia.


Também mostra que a Força Armada bolivariana está corroída por contradições de classe, atuando em seu seio a luta entre revolução e contra-revolução. Esses comandantes do exército que estavam reformados tinham antes posições de comando importantes. Quantos oficiais existem dentro do exército que têm dúvidas ou estão abertamente com a reação? Quantos novos Baduel nos reserva o futuro? A única garantia de que o exército esteja do lado do povo é através de uma união cívica militar efetiva, que passe pela entrada da política nos quartéis, que os militares possam estar filiados no PSUV, assembléias de soldados onde se eleja democraticamente os comandos, o armamento geral do povo com o desenvolvimento da reserva em todas as fábricas, bairros, comunidades, etc.


Como assinalou recentemente o presidente Chávez, a principal lição da derrota da revolução chilena é que uma revolução deve estar armada. A única garantia frente a qualquer tentativa contra-revolucionária é o povo estar vigilante, armado e que a revolução leve suas tarefas até o fim, expropriando a burguesia e desenvolvendo uma economia nacionalizada e planificada para terminar com as pragas da anarquia capitalista na Venezuela.

Delegação entrega carta no Consulado da Venezuela propondo II Encontro Latino Americano de Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores

Uma delegação representando o Movimento das Fábricas Ocupadas no Brasil, a Campanha Internacional “Tirem as Mãos da Venezuela”, a Esquerda Marxista e a Juventude Revolução entregou para a Cônsul da Venezuela em SP, Sra Laura Virgínia Grasse Fajardo, uma carta propondo a realização do II Encontro de Latino Americano de Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores.
A carta está assinada por líderes de movimentos de fábricas ocupadas na América do Sul, como Serge Goulart (Brasil), Eduardo Murua (Argentina), Liliana Pertuy (Uruguai), Mário Barrios (central sindical CTA – Argentina), além de companheiros de mais duas empresas argentinas recuperadas pelos trabalhadores.
No I Encontro Latino Americano de Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores, ocorrido em 2005, em Caracas na Venezuela, o presidente Hugo Chávez abriu os trabalhos reafirmando a tese de que “fábrica quebrada deve ser fábrica recuperada pelos trabalhadores”.
Esse apoio “é um fato histórico muito importante para o movimento dos trabalhadores, que um presidente se reúna com eles para gerar políticas de emprego, de trabalho digno, de soberania industrial, de direitos e de novas formas de integração entre os povos”, afirma o documento.
A camarada cônsul se comprometeu a entregar pessoalmente a carta ao presidente Hugo Chávez e a tentar agendar uma reunião com ele e os proponentes do II Encontro Latino Americano de Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores para impulsionar a organização do evento.

Leia a íntegra da carta (em espanhol), clicando na imagem.